sábado, 27 de dezembro de 2008
A Segunda Guerra Púnica(218 a 202 a.C.)
A Segunda Guerra Púnica foi possivelmente o acontecimento mais importante da Antigüidade ocidental, pois foi através da vitória neste conflito que Roma começou sua grande expansão. Ao final da guerra, os vitoriosos romanos tomaram o controle do Anatólia, anexaram a Península Ibérica, começaram a completar a subjugação da própria Península Itálica, firmaram alianças no norte da África e começaram sua expansão em direção ao Oriente, para a Ilíria, para a Grécia e para a Anatólia. Foi um conflito demorado, que envolveu toda a bacia oeste do Mediterrâneo, estendendo-se da Península Ibérica até a Península Itálica e desde o sul da Gália até o norte da África.
Igualmente importante, foi a destruição do poderio cartaginês, decisivo para a equação de poder no ocidente por vários séculos, assim como as mudanças que muito contribuíram para a definitiva consolidação da forma do exército romano, que passou por importantes transformações no período.
Antecedentes:
A Segunda Guerra Púnica (De Poeni, em latim, "Fenício" e também "Pirata"), começou em conseqüência da Primeira Guerra Púnica. Ambas as nações saíram desta primeira guerra bastante prejudicadas pelos esforços e perdas despendidos no período, inclusive com as respectivas economias muito debilitadas. Mas a vitória deu a Roma diversas vantagens.O tratado firmado entre as duas nações era consideravelmente mais brando do que o que seria imaginável após a vitória romana, mas na verdade os vitoriosos não teriam como impor um acordo mais forte, dada a situação a que o esforço de guerra reduzira a própria Roma.
Assim, em decorrência do tratado de paz, Roma recebe a Sicília, enquanto Cartago fica com a Sardenha e a Córsega. Na verdade, porém, aproveitando-se da paz ao sul, Roma aproveitou para expandir-se para o norte, após derrotar uma invasão gaulesa em 225 a.C., em Telamon, subseqüentemente conquistando a Gália Cisalpina, até o sopé dos Alpes, além de limpar o Adriático dos piratas e trazer para sua esfera de influência parte da Ilíria, após a guerra contra Teuta, chamada de Primeira Guerra Ilírica – trampolins naturais para os Bálcãs, a Macedônia e a Grécia.
Ao mesmo tempo, como conseqüência desta vitória, Roma, antes uma potência terrestre, passou a contar com uma marinha poderosa, além de consolidar definitivamente seu domínio sobre o sul da Península Itálica. Entrementes, a derrota provocou uma convulsão militar e política em Cartago (Cart-Hadash, "A Cidade Nova"), com a revolta dos mercenários, que se rebelaram pelo não- recebimento do soldo após terem sido retirados da Sicília e trazidos para o norte da ÁfricaLíbia, envolvendo berberes, alguns númidas e mesmo certas cidades fenícias.
Aproveitando-se desta instabilidade, Roma também ocupou a Sardenha e a Córsega e quando o general Amílcar Barca (Amílcar = "Aquele que o deus Melcarte protege", Barca = "raio") conseguiu debelar a revolta em uma guerra extremamente brutal de lado a lado, inclusive estendendo o território cartaginês para dentro da Numídia, os romanos haviam se aproveitado e ocupado ambas as ilhas. Os cartagineses protestaram, mas Roma, aproveitando a fragilidade destes, lhes declarou guerra, que só conseguiram evitar com o pagamento de uma enorme quantia e a entrega definitiva da Córsega e da Sardenha, possessões cartaginesas muito importantes pelos suprimentos de grãos e metais.
Buscando recuperar sua força anterior, Cartago passou a controlar a Numídia e a Argélia. Ao mesmo tempo, passou a investir cada vez mais no controle da Península Ibérica, onde de há muito possuía interesses, tarefa que foi confiada ao mesmo general Amílcar Barca. E, desta forma, um exército africano invade a península sob seu comando, em 237 a.C.
Realmente, o interesse de Cartago na Península Ibérica era plenamente justificado, devido as suas grandes reservas de metais, além da oportunidade que as tribos locais davam para a incorporação de celtiberos nos próprios exércitos cartagineses.
Amílcar Barca
Amílcar Barca era o mesmo comandante cartaginês que se destacara lutando na Sicília na Primeira Guerra Púnica. Pertencente a uma das mais respeitadas famílias de Cartago, que desenvolvia um processo de restauração da monarquia em proveito próprio, fora o principal responsável pela derrota da revolta dos mercenários. Paulatinamente, nos dezessete anos seguintes, os cartagineses que ele comandava impuseram seu domínio sobre o sul da península, ocupando a região entre o Mar Mediterrâneo e a Serra Morena e fazendo da localidade de Akra Leuke, a sede de seu domínio, dando início ao período bárquida na Península Ibérica, até que Amílcar, em 229 a.C., morreu em confronto com uma tribo local.Seu cunhado Asdrúbal (Asdrúbal = "O ajudado de Baal") o sucedeu no comando. Este, além de pacificar as tribos ibéricas, escolheu como capital do novo domínio um velho povoado fenício que rebatizou de Nova Cartago (atual Cartagena), um dos melhores ancoradouros do Mar Mediterrâneo. Porém, Asdrúbal foi assassinado em 221 a.C. e, para substituí-lo, o exército escolheu o filho mais velho de Amílcar, que acompanhara o pai na invasão com a idade de nove anos e que na ocasião contava apenas 26 anos de idade, chamado de Aníbal Barca.
O início da Guerra
Aníbal Barca (Aníbal = "A graça de Baal"), assumiu o comando do exército com vinte e seis anos, decidido a completar a sujeição da Península Ibérica e dar continuidade ao plano cartaginês de ir à forra contra Roma.Mas o governo de Cartago recusa-se a declarar guerra. Na verdade, Roma temia a eventualidade de uma aliança entre cartagineses e gauleses que a ameaçasse. Mas tentou agir primordialmente por meios diplomáticos, firmando em uma aliança com a colônia grega de Sagunto, na Península Ibérica, com a qual já possuía laços anteriores e que poderia ser muito útil em caso de uma guerra com Cartago na região.
Antes mesmo disto, porém, Asdrúbal firmara um tratado com Roma em 226 a.C., pelo qual os romanos reconheciam o direito dos cartagineses se estenderem até o rio Ebro, que divide a Península Ibérica ao meio e que representava o limite da expansão cartaginesa aceitável pelos romanos.
Modernamente, porém, muitos historiadores tem refutado o rio Ebro como sendo o rio do tratado, apontando diversas inconsistências para que ocupe esta posição, especialmente o fato de que a cidade de Sagunto encontra-se ao sul deste curso d'água, além de indicarem a inexistência de vestígios arqueológicos de presença cartaginesa mais ao norte. Tem-se apontado que este rio seria, na verdade, o rio Segura, ou outro rio meridional. Todavia, esta questão, objeto de grande discussão nos meios acadêmicos, ainda se encontra em aberto.
Na realidade, aparentemente a intenção de Aníbal consistia em justamente unir as tribos celtas na luta contra Roma e, posteriormente, afastar esta de seus aliados na Península Itálica, portanto dentro da evolução que os romanos temiam.
Talvez resolvido a provocar o conflito, Aníbal atacou e sitiou Sagunto. Embora esta cidade estivesse 120 quilômetros ao sul do Ebro e, portanto, no território permitido para a ocupação cartaginesa. Durante o cerco, o Senado Romano requereu que Aníbal desistisse da operação de guerra. Mas este se recusou a suspender o ataque. Em resposta, outra missão do Senado dirigiu-se desta vez a Cartago, com um ultimato para que Aníbal fosse entregue para julgamento em Roma. Quando o Conselho dos Cem, órgão superior do estado cartaginês recusou-se a entregar o comandante, Roma declarou guerra, em março de 218 a.C.
Da Península Ibérica até o Lago Trasimeno
Aníbal, porém, foi quem tomou a iniciativa, em vez de esperar as invasões romanas da Península Ibérica e da própria África, decidindo invadir a Península Itálica. Mas, em vez de partir por mar, seguiu em abril de 218 a.C. com seu exército pelo sul da Gália, visando transpor os Alpes e atacar Roma cruzando o vale do Rio Pó. Para detê-lo, Roma enviou o cônsul Cornélio Cipião, pai de Cipião Africano, que buscou bloquear o avanço de Aníbal no rio Ródano. Mas o comandante cartaginês tomara outra rota, diferente da esperada, atravessando o rio mais acima, utilizando balsas para passar os elefantes, e infletindo para o norte, tomando a rota que conduzia ao vale do Rio Isere, objetivo bem mais complicado e distante que a rota pela Riviera, mas também muito mais difícil de ser defendido pelos romanos.
Percebendo a estratégia de Aníbal, Cipião retornou à Península Itálica por mar, com parte de suas forças, enquanto os cartagineses alcançavam o sopé da cadeia dos Alpes. Esta rota, na verdade, não era novidade, sendo o caminho habitual pelo qual os gauleses haviam invadido no passado a península, sendo que a razão de Aníbal optar por ele foi justamente tentar o apoio destas tribos na guerra contra Roma. Todavia, não conseguiu nenhum apoio na Gália Transalpina, pelo contrário enfrentando grande oposição das tribos que controlavam os passos na cadeia de montanhas. Assim, os cartagineses tiveram que lutar para alcançarem os cumes das montanhas, que lhes permitiam controlar o terreno. A jornada revela-se extremamente árdua, custando muitos homens para Aníbal. E embora números na Antigüidade sejam de difícil comprovação, calcula-se que Aníbal partira de sua base com mais de 45 mil homens, mantendo 38 mil infantes e 8 mil cavaleiros ao cruzar o Ródano, dos quais apenas cerca de 20 mil infantes e 6 mil cavaleiros chegaram à Gália Cisalpina. Mas finalmente, em setembro de 218 a.C., seu exército conseguiu atravessar para a Itália, apenas para ver os elefantes caírem doentes e morrerem no vale do Pó. Em compensação, a estratégia de Aníbal pegara os romanos despreparados, pois sua crença era de que os Alpes, verdadeira muralha, esmagariam o ânimo e a resistência de seus inimigos.
A primeira oposição que enfrentaram foi a de Cipião, na Lombardia. Lá, porém, Aníbal dispôs magistralmente de sua cavalaria e derrota duas vezes os romanos. Logo na primeira batalha, em outubro de 218 a.C., o comandante romano Cipião foi vencido pela cavalaria númida na Batalha do Ticino e, dois meses depois, em dezembro de 218 a.C., Semprônio Longo foi igualmente derrotado com uma armadilha feita pela cavalaria. Ato contínuo, Aníbal destruiu as duas colônias romanas na Gália Cisalpina, Cremona e Placência e, graças a estas vitórias e a lutarem em províncias recém conquistadas que viam Roma como uma invasora e conquistadora, chegam vários recrutas e muitos suprimentos para o exército cartaginês.
Ali, no norte da Itália, Aníbal passou o inverno. Antecipando-se aos movimentos dele e tencionando deter a invasão já claramente perigosa, Roma enviou dois exércitos ao norte, bloqueando a progressão de Aníbal pelas duas rotas possíveis: uma, no Adriático, que era Ariminum (atual Rimini) e outra na Etrúria, em Arretium (atual Arezzo). Tendo de escolher por um dos dois caminhos, Aníbal escolheu o de Arretium, pela Etrúria, em direção às tropas do cônsul Caio Flamínio.
Para esta investida, os cartagineses buscaram surpreender os romanos, optando por avançar através de pântanos, que atravessam com grandes custos ao longo de quatro dias e três noites, sofrendo grandes perdas em homens e animais. Mas todo seu sacrifício é compensado quando chegam a Arretium e encontraram os romanos ainda acampados, sem esperarem o ataque.
Todavia, em vez de avançar diretamente contra os romanos, Aníbal ultrapassou o acampamento de Flamínio e caiu sobre o distrito de Arretium. Vendo a destruição da região, o cônsul Flamínio levantou acampamento e saiu em sua perseguição. Com isto estava caindo em uma bem planejada armadilha, pois dando perseguição a Aníbal ao longo da estrada para Roma, seguiu atrás dele pelas margens montanhosas do Lago Trasimeno, onde no enevoado dia seguinte atacou o exército cartaginês, que recuou.
Acreditando na vitória iminente, Caio Flamínio pôs-se novamente em perseguição, apenas para ver tropas cartaginesas emergirem das elevações cheias de bosques em volta e atacarem suas legiões por todos os lados. Completamente superado, o exército romano é destruído. Neste momento, nada mais existia entre o exército cartaginês e a própria Roma.
Mas Aníbal, inexplicavelmente, não marchou direto contra Roma. A razão disto é desconhecida, mas a falta de máquinas de assédio foi sempre apontada como um fator importante. Outra hipótese é que dada à impossibilidade de conquistar a cidade inimiga, Aníbal já tencionasse separar Roma de seus aliados, para o que sua estratégia seria rumar para o sul da Península Itálica, obter apoio entre outros dos sanmitas e ficar bem posicionado para receber suprimentos e reforços de Cartago. Tomou a rota atravessando a Etrúria, cruzando os Apeninos em direção ao Adriático e parando para repousar as tropas, período em que adquiriu uma doença oftálmica que lhe custou um dos olhos. Ao mesmo tempo, Aníbal procurou formar uma aliança com diversas cidades italianas, congregando-as na derrota de Roma, sua conquistadora no passado recente. Todavia, esta plana falha, com as cidades da Itália permanecendo fiéis a Roma. Dois motivos apontados para este comportamento são os fatos de Aníbal, com falta de suprimentos, ter permitido o saque em seus territórios e também a política romana em relação aos territórios conquistados, permitindo que estes mantivessem vários direitos. Ao mesmo tempo, apesar das recentes derrotas, Roma abriu um novo teatro de operações, iniciando hostilidades na própria base de Aníbal, a Península Ibérica, onde enfrentam o irmão mais novo de Aníbal, Asdrúbal Barca.
A estratégia Fabiana
Enquanto Aníbal prosseguia com sua estratégia política, os romanos decidiram não mais enfrentá-lo em campo aberto. Em vez disso, seu ditador nomeado na época, chamado Quinto Fábio Máximo, também conhecido até então como Veruscus, eleito em 217 a.C., optou por uma prolongada guerra de atrito, visando enfraquecer paulatinamente Aníbal. Fábio, que ganhou o apelido de cunctator (Contemporizador), tentou desgastar Aníbal com incontáveis recontros, provocando danos à moral do exército cartaginês e impedindo que este se reabastecesse de soldados. Também buscava, com esta estratégia de desgaste moral e material, evitar que cidades italianas se unissem aos invasores.
Para implementar tal estratégia, Fábio se recusou a enfrentar os cartagineses em campo aberto, onde a cavalaria númida dava a estes uma imensa vantagem, mantendo as tropas romanas nas montanhas, onde tal vantagem era anulada. Assim, abalou o moral do exército invasor ao mesmo tempo em que fortaleceu o do próprio, assim como o de seus aliados.
Porém, a estratégia de Fábio não era popular entre todos os romanos. Muitos desejavam um grande confronto, que definitivamente eliminasse a ameaça de Aníbal. Assim, os políticos romanos tomaram uma atitude absolutamente inédita, fora mesmo da constituição da República, ao elegerem um vice-ditador, chamado Minúcio, ex-auxiliar de Fábio, mas agora comprometido com um ataque direto aos cartagineses, e dividindo o comando do exército romano entre ambos. Partindo imediatamente para o ataque, Minúcio prontamente caiu em uma armadilha de Aníbal, apenas escapando de ser destruído graças à intervenção do próprio Fábio.
Infelizmente, o mandato de Quinto Fabio como ditador era do tipo ad tempus certum e, ao findar seu período, além deste não ser prorrogado, nas eleições subseqüentes, em 216 a.C., foi eleito um cônsul, Caio Terêncio Varrão, também conhecido como Varro, profundamente comprometido com um ataque direto contra Aníbal. Mais ainda, considerando a devastação sofrida pela Península Itálica inaceitável, o Senado ordenou que se atacassem logo os cartagineses.
Para tanto, Roma levou a campo o maior exército de que até então dispora, no impressionante total de oito legiões, o que significava aproximadamente 86 mil homens. O outro cônsul, Paulo Emílio, acreditava que a batalha deveria ser travada quando as condições fossem favoráveis ao exército romano. Todavia Varro rejeitava esta concepção, acreditando em simplesmente encontrar Aníbal o mais rapidamente possível, dar-lhe combate e destruí-lo.
Com este intuito levou suas tropas para o sul, até a Calábria, num local chamado Canas, onde Aníbal conquistara um depósito de provisões situado em um local estratégico do qual os romanos necessitavam.
Para a compreensão da seqüência de fatos que levaria este exército ao desastre, é preciso compreender uma peculiaridade da constituição romana: dois cônsules eram eleitos, tendo entre suas atribuições comandarem o exército. Quando um cônsul sozinho dirigia uma campanha, cabia-lhe o comando supremo das tropas, mas quando os dois acompanhavam o mesmo exército, cada um deles comandava em um dia, sendo substituído pelo outro no dia seguinte e assim sucessivamente.
Desta forma, Paulo Emilio, acreditando que deveriam aproveitar uma ocasião mais favorável, conduziu as tropas com grande moderação, esperando mesmo que a escassez de suprimentos forçasse Aníbal a abandonar a posição que defendia, possibilitando aos romanos ocupá-la. Mas Varro forçou o combate, aproveitando-se do dia em que o comando alternado lhe cabia para colocar as tropas em formação de batalha, fora do acampamento e frente a frente com o exército cartaginês. Desta forma, Varro fez exatamente aquilo que Aníbal desejava, oferecendo a este a ocasião de provocar uma grande derrota aos romanos, o que lhe fora negada pela estratégia de Fábio.
A Batalha de Canas
Aníbal estudara os métodos militares romanos e, portanto, sabia que os inimigos avançariam contra o centro de suas forças. Mais do que isto, porém ele contou com as próprias táticasVarro. Este, talvez por achar que a causa anterior das derrotas romanas fora a menor profundidade das formações das legiões comparativamente com a falange macedônia usada pelos cartagineses, dispôs suas tropas numa enorme e compacta coluna, pouco mais comprida do que larga. Esta formação, feita para atuar empurrando os cartagineses como um aríete, assim substituía a tradicional formação romana em manípulos. Aníbal, por sua vez, dispôs suas forças não em linha reta, mas sim numa fila convexa. Mais ainda, na vanguarda colocou seus soldados mais fracos, gauleses e celtiberos, enquanto nas extremidades colocou recuadas suas melhores tropas, de veteranos africanos. Cobrindo os flancos de seu dispositivo, pôs a soberba cavalaria, na direita a cavalaria cartaginesa e na esquerda a númida.
No princípio da batalha, a cavalaria cartaginesa na esquerda derrotou a cavalaria romana da direita, que fugiu e, dando a volta por detrás da formação romana, atacou a cavalaria da esquerda romana, que lutava contra a cavalaria númida.
Neste meio tempo, os romanos atacaram com sua infantaria, exatamente da forma esperada, avançando contra o centro e contra os gauleses, que como Aníbal previra cederam e logo formaram uma concavidade na linha cartaginesa, para a qual convergiu a infantaria inimiga. De repente, os cartagineses avançaram e fecharam a formação adversária pelos lados, flanqueando os romanos, ao mesmo tempo em que sua cavalaria atacava os romanos pela retaguarda. As legiões foram completamente cercadas, em tal amassamento dentro da formação cartaginesa que sequer puderam sacar suas espadas. O que deveria ser o combate decisivo contra Aníbal tornou-se uma carnificina, na qual o próprio exército de Roma foi massacrado.
Os historiadores divergem sobre o número de perdas, mas concordam em que pereceu a fina-flor do exército de Roma, além de sua maior parte, numa derrota total e completa, muito pior que a do Lago Trasimeno. Ironicamente, entre os mortos está o cônsul Paulo Emílio, enquanto seu colega e principal responsável pelo desastre, o cônsul Varro, voltou a Roma sem sequer ter sido aprisionado.
A notícia da derrota espalhou do pânico em Roma. As mulheres doaram suas jóias ao estado e limparam o chão dos templos com seus cabelos, as legiões recusaram-se a receber o soldo, crianças de 13 e 14 anos foram alistadas para servirem na defesa das muralhas, além de escravos terem sido aceitos nas legiões mediante a promessa de liberdade e o Senado, visando o favor dos deuses, mandou sacrificar-lhes quatro prisioneiros enterrando-os vivos.
Inexplicavelmente, porém, Aníbal não marchou contra Roma, o que a história jamais compreendera perfeitamente. Sem dúvida lhe faltavam máquinas de assédio, o que é uma das explicações aventadas. Outra hipótese plausível para a recusa de Aníbal em atacar RomaCanas, que permitiu aos romanos se reorganizarem para a defesa da cidade. Igualmente especula-se que Aníbal, após a monumental derrota romana, imaginava que as cidades italianas aderissem finalmente à sua causa, assim como esperava atrair a aliança de diversas outras nações, ao invés de ter de invadir o Lácio e sitiar uma por uma das cidades latinas até a própria Roma.
De fato, tão grande foi à derrota de Roma que as tribos dos sanmitas e outros se rebelaram e passaram a apoiar Aníbal, ao mesmo tempo em que as cidades da Magna Grécia e da Campânia, lideradas por Cápua, a segunda maior da Itália, fizeram a mesma coisa e abriram suas portas aos cartagineses. Ao mesmo tempo, o rei Filipe V da Macedónia, aderiu à causa cartaginesa, em 215 a.C., e declarou guerra aos romanos, além da própria Cartago, sempre avara em suprimentos e homens para Aníbal, lhe enviar reforços. Mais importante ainda, os soberanos de Siracusa que substituíram a Hierão mudaram de lado e abraçaram a aliança com Cartago. E a Sicília era vital para Roma por causa do fornecimento de cereais.
Mas as esperanças de Aníbal se interrompem neste ponto, pois as cidades do centro da Itália, notadamente da Etrúria, do Lácio e da Úmbria, permanecem fiéis a Roma, que por sua vez entregou suas tropas restantes ao cônsul Cláudio Marcelo e voltou, na medida do possível, a estratégia de desgaste e guerrilha pensada por Quinto Fábio Máximo.
Assim, se explica este momento da guerra por Aníbal não possuir força suficiente para tomar Roma ou invadir o Lácio e por talvez nem a própria Cartago as possuir se realizasse um esforço definitivo. Desta forma, Aníbal permaneceu no Sul da Península Itálica, aguardando reforços da África, da Península Ibérica ou da Macedônia, sem avançar diretamente contra Roma.
A estagnação na Itália e o desenrolar da guerra em outros teatros de operações
Este período da Segunda Guerra Púnica foi caracterizado pela falta de ação no teatro principal da guerra e, ao mesmo tempo, por diversos conflitos em outras regiões.Na Península Itálica, os cartagineses se instalaram em Cápua e ocuparam o sul da península, estabelecendo-se uma frente de batalha mais ou menos na altura do rio Volturno, 174 quilômetros ao sul de Roma. Atacar Aníbal diretamente neste reduto mostrou-se impossível e nos cinco anos seguintes mais de um comandante Romano que tentou tal coisa e foi derrotado serviu de prova.
Entrementes, na Sicília, o cônsul Marcelo atacou e conseguiu tomar Siracusa em 212 a.C., após um longo e terrível sítio, no qual a cidade foi defendida pelo matemático e engenheiro Arquimedes, o que fez os romanos terem de enfrentar as mais recentes inovações da ciência grega. Esta vitória se completou pela conquista, pouco depois, também da cidadela cartaginesa de Agrigento, logrando a retomada da ilha e assegurando o fornecimento de cereais a Roma, além de dificultar as comunicações entre Aníbal e Cartago.
Uma importante manobra ocorreu quando os romanos se aproveitaram da ausência de Aníbal e seu exército para atacarem e assediarem Cápua, um ano após a tomada de Siracusa. As legiões lograram invadir a cidade, o que levou os líderes da rebelião anti-Roma, responsáveis pelo massacre dos romanos ao decidirem pela aliança com Cartago, a cometerem suicídio ou serem executados pelos vencedores, enquanto a população da cidade sofria uma diáspora pelos restantes domínios de Roma.
Ao mesmo tempo, os romanos iniciaram uma série de operações contra Filipe V, enviando uma grande frota para vigiarem o Adriático, que impediu aos macedônios a conquista da cidade de Apolonia, trampolim para a invasão da Península Itálica. Iniciaram também uma ofensiva diplomática junto aos estados gregos, tentando congregá-los contra a Macedônia. Assim, quando Filipe V, após diversas vitórias na Ilíria, conseguiu tomar o excelente porto de Lisso, ao mesmo tempo em que Aníbal tomava o porto de TarentoTaranto), (atual tornando viável a ambicionada invasão, uma poderosa coalizão grega comandada pelos etólios, aos quais Roma prometera dinheiro e apoio militar, impediu que os macedônios juntassem suas forças com as de Aníbal.
Roma também redobrou seus esforços na Península Ibérica, onde já começara operações antes mesmo da derrota de Canas, para onde enviou um novo exército sob comando de dois membros da família Cipião, um dos quais o Públio Cipião que antes já fora derrotado por Aníbal. Esta força conseguiu vencer os cartagineses no rio Ebro, em 215 a.C., derrotando Asdrúbal, mas pouco depois foi por este derrotada, com a morte de seus dois comandantes. Assim, Cartago mantinha, apesar da presença de uma pequena força romana, o controle da essencial Península Ibérica, base de seus exércitos.
Mas neste ponto Aníbal estava praticamente isolado no sul da Península Itálica, sem conseguir assediar Roma e privado de reforços. Percebendo a mudança nos ventos da guerra, Filipe V voltou atrás na aliança com Cartago e passou a apoiar Roma, privando Aníbal de seu mais forte aliado.
Tentando reverter definitivamente o curso dos acontecimentos na Península Ibérica, o Senado Romano nomeou um candidato improvável para comandante. Tratava-se de Públio Cornélio Cipião, filho do cônsul Cipião e sobrinho do outro comandante que também morrera na campanha contra Asdrúbal. Tinha apenas 24 anos, idade abaixo da legal para comandar exércitos, mas inspirava tal confiança no povo e no Senado que a lei foi alterada para permitir que ele assumisse o controle das legiões em confronto com Asdrúbal.
Em 210 a.C., ele correu para assumir o comando, com ordens de defender a única possessão romana na região, um enclave no Nordeste da península.
Públio Cornélio Cipião
Naquela época, era conhecido como Públio Cornélio Cipião, O Moço, e, apesar de sua pouca idade, já dera mostras de grande capacidade política, além de ser considerado carismático e devoto, apresentando-se publicamente como ungido pelos deuses.Assumindo o comando do exército ibérico, Cipião alterou sua missão, basicamente defensiva, para uma tentativa de efetivamente derrotar Asdrúbal e expulsar os cartagineses. Utilizando a diplomacia e da ação militar, com uma tática superior e rápidos deslocamentos, primeiro cortou as comunicações entre Nova Cartago e o restante das tropas, depois a isolou das forças aliadas e, vadeando um lago e atacando as muralhas da cidade, conquistou a principal base cartaginesa. Com isto, acertou um golpe importantíssimo nas pretensões cartaginesas, pois a Península Ibérica era a verdadeira base de Aníbal, sede de seus exércitos e celeiro de recrutas.
Vendo a situação perdida, Asdrúbal atendeu ao chamado anterior de seu irmão e tentou alcançar a Itália, também pela rota dos Alpes. Mas Roma tomou conhecimento de seu deslocamento. Desta forma, o cônsul Nero, que tinha suas forças frente às de Aníbal, imperceptivelmente as retirou desta frente sul e as levou para o norte sem que o general cartaginês percebesse, onde encontrou o exército de Asdrúbal. Em Signália, junto ao rio Metauro, ao norte da península, Nero não só destruiu o exército inimigo como também conseguiu matar Asdrúbal, em 207 a.C.
Em 205 a.C., Públio Cornélio Cipião retornou a Roma e, eleito cônsul, propôs-se a realizar um plano ousado: invadir diretamente o norte da África e atacar Cartago em seu próprio território. A reação do Senado e principalmente de Quinto Fábio Máximo foi absolutamente negativa. Mesmo assim, Cipião conseguiu permissão para a empreitada, embora lhe fosse negada autorização para recrutar tropas. Conseguiu apenas voluntários e duas legiões que, derrotadas anteriormente em Canas, haviam sido mandadas em desgraça para a Sicília. Com esta força na primavera de 204 a.C., ele partiu para invadir o coração do inimigo, na esperança de que Aníbal o seguisse.
A Guerra chega à África
Na época da Segunda Guerra Púnica, o norte da África era bem mais desenvolvido e civilizado que a própria Península Itálica, O que se revelou vital para a estratégia que Cipião Africano empregaria contra Cartago.Logo ao desembarcarem as tropas romanas, Cartago mandou contra elas toda a cavalaria de que dispunha. Mas Cipião, manobrando numa retirada tática, as atraiu para uma armadilha e a aniquilou. Graças a esta vitória, conseguiu dois efeitos importantes: mais apoio de Roma e abalar a liderança de Cartago na região.
A manobra seguinte de Cipião, todavia, fracassou, com o cerco de seis semanas ao porto de Útica sendo levantado pelas tropas de [Sifax]], rei dos númidas e o mais poderoso aliado de Cartago, que veio se juntar às novas tropas que o general cartaginês Asdrúbal Grisco recrutava. Juntas, estas forças muito superiores obrigaram Cipião a recuar até uma pequena península, que este fortificou e transformou em refúgio.
A partir desta base improvisada, planejou uma arriscada manobra, dando a impressão de que tentaria invadir o porto de Útica e, de repente, num ataque noturno, caindo sobre o acampamento das tropas de Sifax, situado a 11 quilômetros do acampamento cartaginês. Vendo o fogo se alastrar nas posições de seus aliados, os cartagineses abriram as portas de seu próprio acampamento na tentativa de ir socorrê-los e neste momento Cipião aproveitou para atacar também suas tropas, com o que conseguiu a completa derrota tanto de Sifax quanto dos cartagineses. Graças a esta vitória, entre Cartago e as legiões romanas não existia mais nenhuma oposição apreciável.
Todavia, tal qual Aníbal antes dele, Cipião também não marchou direto contra a capital inimiga, igualmente por lhe faltarem condições para o assédio de uma cidade muito maior do que a própria Roma. Ademais, um sítio a Cartago, além de sua difícil implementação, como a Terceira Guerra Púnica viria demonstrar posteriormente, não necessariamente traria Aníbal de volta à África, como desejava Cipião. Havia também o risco deste cerco trazer Aníbal de volta enquanto as operações contra a capital inimiga prosseguissem, prensando os romanos entre as duas forças. Assim, ao invés do ataque direto, Publio Cipião optou por destruir os aliados de Cartago, tencionando também abalar sua estrutura econômica e a própria moral dos inimigos.
Desta forma, escolheu marchar contra Sifax e suas tropas, que derrotou e, naquela que se revelaria à manobra decisiva da guerra, investiu contra aNumídia, derrotando os aliados cartagineses e colocando Massinissa no comando da terra de onde saíra à cavalaria que havia constituído umas das principais forças do exército de Cartago. Depois, avançou contra Túnis, outra aliada que ficava frente a frente da própria Cartago, dividindo a mesma baia, destruindo-a.
A Batalha de Zama
Antes do desembarque de Aníbal, Cipião dispensara Massinissa e sua cavalaria para que voltasse a Numídia e assegurasse o seu trono. Com a chegada de Aníbal, os romanos também ficaram presos entre as tropas deste e a própria Cartago. É provável que tratativas de paz encetadas entre Cartago e os romanos e a trégua em que elas se deram representasse um despiste para dar tempo a Aníbal de retornar a pátria.Nesta situação, Cipião escolheu nem avançar contra Cartago nem dar combate a Aníbal, mas fugir ou dar combate direto e retirar suas forças, deixando apenas um pequeno destacamento e se afastando de Cartago através do vale de Bagrados. Assim, enquanto Aníbal corria para Cartago, Cipião movimentou-se em sentido inverso. A razão desta manobra foi colocá-lo em contato com Massinissa, que retornava às pressas da Numídia, e também colocar o exército romano exatamente no coração da fonte de alimentos da própria Cartago, numa posição que estes seriam obrigados a defender.
Ao saber da posição assumida pelos romanos, o Senado de Cartago ordenou a Aníbal que imediatamente o enfrentasse e, apesar deste responder que não se imiscuíssem em tais assuntos, Aníbal acaba tendo de se portar como o general romano pretendia. Desta forma, deslocou-se em marcha forçada para o oeste, afastando-se de Cartago e internando-se longe de qualquer cidade, fortaleza ou outro ponto de apoio para suas tropas. E no mesmo momento em que chegava Aníbal perante seu exército, Cipião recebia, também, o reforço de Massinissa e de sua cavalaria númida.
Porém, em vez de combater os cartagineses, Cipião mais uma vez recuou, afastando os inimigos dos suprimentos de água e levando a batalha para uma planície, onde sua superioridade em cavalaria lhe tornava qualquer desenvolvimento tático favorável. O nome deste local era Naragara, embora a posteridade o conhecesse, incorretamente, por Zama.
Para esta batalha decisiva, Aníbal dispôs suas tropas primeiro, colocando-as em formação antes de Cipião. Nas alas, sua própria cavalaria de númidas e cartagineses protegia as alas da infantaria, formada na frente pelos celtiberos e gauleses e, atrás, pelas suas melhores tropas, de veteranos africanos. À frente do dispositivo, ele colocara intimidadores batalhões de elefantes.
Ter de dispor as tropas depois de Aníbal deixava Cipião numa situação difícil, mas para isto a cavalaria de Massinissa mostrou-se vital. Os esquadrões montados adentraram o cenário em coluna e, frente ao exército cartaginês, abriram-se em linha, protegendo a infantaria que evoluía atrás. Depois, deslocaram-se para os dois flancos da formação, assumindo posição idêntica as da cavalaria adversária, embora estivessem em número bem maior.
O dispositivo de Cipião trazia a formação já tradicional de Velites, Hastários, Príncipes e Trinários, embora com um truque que decidiria a batalha favoravelmente aos romanos: coortes inteiras de homens armados com trompas de guerra logo nas primeiras filas da infantaria.
Coube a Aníbal o primeiro movimento, através de seus elefantes. A uma ordem sua, os pelotões de bestas que estavam à frente de sua infantaria avançaram contra os romanos. Porém, ao alcançarem a linha inimiga, além da oposição dos Velites à frente da infantaria, o som das trompas assustou os animais, que apavorados fugiram em direção ao próprio exército cartaginês, arrasando as alas direita e esquerda da cavalaria de Aníbal.
Imediatamente, os romanos alternaram a posição dos Hastários com os Príncipes, enquanto a cavalaria de Massinissa pelo seu lado direito e de Caio Lélio pelo esquerdo avançavam e a cavalaria cartaginesa, inferiorizada em efetivos, recuava para fora do cenário da batalha. Neste ponto, Aníbal ordenou que sua infantaria atacasse, com os celtiberos e gauleses na frente e com seus veteranos atrás. No choque que se seguiu, a infantaria de Cartago não conseguiu empurrar a infantaria romana e a formação mais larga e mais delgada de Cipião mostrou sua superioridade, envolvendo os flancos da formação cartaginesa e a assolando de três lados. Por fim a cavalaria de Massinissa retornou pelas costas de Aníbal, cercando totalmente o exército de Cartago. Sem condição de evoluir taticamente, o exército cartaginês foi completamente derrotado.
Pior talvez do que esta derrota tática, foi à derrota estratégica anterior, pois num local remoto e sem pontos de apoio, Aníbal não teve para onde recuar nem como reagrupar suas tropas. Nesta condição, totalmente vencido, rendeu-se a Cipião. Cartago nada mais tinha a responder após Zama. Não teve escolha além de pedir a paz e dar a guerra como perdida.
Roma aproveitaria a derrota total da inimiga, impondo condições rapaces: Cartago deveria entregar toda a sua frota, pagar uma brutal indenização, abandonar todas as suas posses.
Os destinos de Aníbal e de Cipião
Após a rendição, Aníbal permaneceu em Cartago, como magistrado-chefe, tentando obter meios de pagar a grande indenização exigida por Roma. É consenso entre os historiadores que procedeu bem nesta tarefa, agindo com honestidade e irritando a nobreza cartaginesa, que o denunciou a Roma. Ao receberem a denúncia, os romanos viram a ocasião para se livrarem do velho adversário, exigindo que Cartago o entregasse.Aníbal, todavia, fugiu para a Síria, na época parte do Império Selêucida, aconselhando o rei Antíoco III a entrar em guerra contra Roma, guerra esta que Antíoco perdeu, novamente para Cipião e na qual Aníbal atuou como comandante naval. Da Síria fugiu para a Bitínia onde, prestes a ser entregue aos romanos, suicidou-se com veneno.
Quanto a Cipião, o herói que derrotara Cartago, ainda comandaria, sob as ordens de seu irmão, a derrota de Antíoco III. Mas seria acusado por adversários políticos de corrupção e terminaria se refugiando naPenínsula Ibérica , abandonando Roma.
Conseqüências da Guerra
A primeira e mais importante de todas as conseqüências foi colocar Roma definitivamente no caminho do império, expandindo muito seu território. Embora a guerra prosseguisse durante décadas, a Península Ibérica foi formalmente anexada em 197 a.C. Para o leste, Roma anexou a Ilíria, após uma guerra que durou de 230 a.C. a 219 a.C..Em 214 a.C., começou a primeira das Guerras macedônicas, que Roma terminou em 168 a.C., com a anexação deste país e a escravização em massa dos macedônios derrotados. Logo após, a partir de 192 a.C., Roma derrotou Antíoco III e anexou a Anatólia até os montes Taurus e, em 97 a.C., Sila, o Feliz, expandiu o domínio romano para o Oriente até o rio Eufrates e para o sul até a Judéia.
Ao mesmo tempo, o decisivo poderio cartaginês foi destruído e, finalmente, em 146 a.C., Cipião, o Africano Menor, neto por adoção de Cipião, o Africano Maior, a destruiu completamente na Terceira Guerra Púnica.
Dentro de Roma, a conseqüência da guerra foi o lento processo de estrangulamento da República. Ao voltarem para casa, os soldados não encontram mais as terras que cultivavam, destruídas pela guerra ou pelo abandono de seus donos, o que acelera a acumulação de propriedades nas mãos dos Patrícios.
Aníbal, de fato, não destruiu Roma, mas a guerra desencadeou uma série de fatos, incluindo a chegada de milhares de escravos do Ponto em conseqüência das Guerras Macedônicas, que causaram a Guerra Agrária. Ele não destruiu Roma, mas ajudou muito a destruir a República Romana e a abrir caminho para os Césares, o Principado e o Império Romano.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Malhas
As armaduras de malha foram possivelmente as mais usadas em toda a história. Seus primeiros achados datam do séc. IV a.C. e estão associados ao povo celta. Os romanos, na seqüência, fizeram largo uso das malhas enquanto durou seu império, deixando-as de herança para os povos medievais que aperfeiçoaram este tipo de armadura ao seu maior grau.
Por toda a Idade Média as armaduras de malha foram usadas, atingindo seu auge no séc. XIII quando o cavaleiro se envolvia literalmente dos pés a cabeça em anéis de ferro interligados.
Historicamente, a existência de malhas com anéis cujas extremidades estão apenas juntadas (sem nenhuma solda ou rebite) é duvidosa. Existem poucos exemplos que sobreviveram, sendo peças das mais antigas ou referentes a reparos em campos de batalha. Todas as outras peças de autenticidade comprovada contém anéis rebitados ou sólidos (soldados ou extraídos por completo de uma chapa). De fato, somente esses anéis conferem às malhas seu poder de proteção num combate real. A Guilda começou a fazer seus projetos em anéis rebitados, embora ainda ofereça peças nos não autênticos anéis juntados.
Sobre a nomeclaturaExiste muita confusão associada à nomenclatura desta armadura. O termo popular em inglês chainmail é um pleonasmo, uma vez que mail — do francês maille, do latim macula que significa malha — dava nome à armadura em sua época. No séc. XVIII, o termo mail acabou se desvirtuando e passou a denotar qualquer tipo de armadura, fazendo surgir nomes medonhos como chainmail, scalemail e platemail, totalmente equivocados.
No português o problema continua. O conhecido cota de malha vem também do francês cotte de maille que significa vestido/veste de malha. Sendo assim, pode-se usar o termo para dizer das peças no formato de túnica ou camisa (hauberk e haubergeon), mas não para dizer da trama ou do tipo de armadura. Falar algo como “este cavaleiro trajando uma túnica de cota de malha” é um equívoco. Ou use “uma túnica de malha” ou apenas “uma cota de malha”.
Tramas
Existem diversas técnicas para se unir os anéis de ferro, são o que damos o nome de trama da malha. É a trama, juntamente com o tamanho e espessura dos anéis, que dará as características de peso, resistência, expansibilidade e flexibilidade da peça. Os armoreiros medievais sabiam disso quando escolheram a trama 4 por 1 como sendo a padrão para suas armaduras.
4 por 1 significa cada argola passa por outras 4. É a trama européia mais simples e também a maiseficiente. Apresenta ótima expansibilidade e pouco peso, que não restringem os movimentos do guerreiro. Outras malhas possíveis são as 6 por 1, 8 por 1 etc. Embora mais densas e teoricamente mais resistentes, pecam pela falta de mobilidade e peso excessivo. Na prática, sempre podemos diminuir o tamanho das argolas de uma trama 4 por 1, melhorando sua resistência, no lugar de optar por uma 6 por 1 com o mesmo tamanho.
Historicamente essas assertivas se verificam. Quase todas as malhas autênticas são 4 por 1, com pouquíssimos exemplos 6 por 1 não totalmente verificados. Deve-se ter em mente que estamos falando de anéis sólidos/rebitados que são dezenas de vezes mais resistentes do que os juntados. Não fosse o caso, diminuir o tamanho das argolas nem sempre seria a melhor opção.
Vale mencionar que armaduras de malha também existiram no Japão feudal, com tramas com simetria triangular bem diferentes das européias, como a 3 por 1 e a 6 por 1 oriental.
Hauberk/Haubergeon
Até o séc. XIII a principal armadura do cavaleiro era a túnica de malha. Descia até a altura dos joelhos, com mangas compridas terminadas em mitenes (luvas), trazendo às vezes uma coifa (capuz) de malha incorporada. A estas túnicas damos o nome de hauberk.
Com o desenvolvimento das armaduras de placas nos séculos seguintes, o hauberk foi reduzindo de tamanho e se tornou o haubergeon, uma camisa descendo até abaixo do quadril com mangas ¾ do comprimento. Estas são as cotas (vestes) de malha.
Na Roma antiga, malha era a armadura padrão dos soldados antes do aparecimento da lorica segmentata. Se parecia com um haubergeon mas sem mangas e trazia uma camada dupla na região dos ombros. Seu nome era lorica hamata.
Seguindo a linha histórica, no início da Idade Média — séc. VI–X — a lorica hamata sobe até a altura dos quadris, ganha mangas de cerca da metade do comprimento e perde a dupla camada nos ombros. Esta cota de malha é comumente associada ao povo escandinavo e recebe o nome de birnie. Pode-se reparar que esta camisa se enquadra muito bem em um haubergeon, mas historicamente colocamos este depois do hauberk enquanto que o birnie antes.
Coifa
A coifa é o capuz feito de malha com o intuito de proteger a cabeça e o pescoço. Durante os séc. XI–XIII costumava ser integrada ao hauberk, depois disso começou a ser vista separadamente, com um manto que descia até os ombros.
Por volta do séc. XII as coifas receberam uma melhoria: a venteira. Tratava-se de uma tira de malha anexada à lateral da abertura da face que, quando presa à outra extremidade, cobria o queixo (por vezes a boca também) deixando somente a parte superior do rosto exposta.
A venteira possivelmente continha um forro que ajudava a malha a ficar moldada corretamente enquanto servia de acolchoamento para diminuir o impacto no maxilar.
Calças
As calças são as proteções de malha para as pernas, podendo ser na forma de meiões compridos, subindo até a coxa, ou uma faixa de malha que dá a volta pela perna, presa atrás por amarras de couro. Por volta do séc. XIII, as calças começaram a aparecer incorporadas com um sapato também de malha.
Manto
O manto era uma peça feita para proteger o pescoço, os ombros e eventualmente a parte superior do peito e das costas. Achados históricos datam do séc. XV e XVI, principalmente de origem germânica. Como mostrado na ilustração, a trama não é radial, mas apresenta emendas de 45°, além de uma fenda nas costas (fechada por cordões de couro) para deixar passar a cabeça.
Camal
O camal tem a mesma finalidade do manto — a proteção da parte superior do corpo — com a diferença de que é afixado ao elmo (muito comum aos bacinetes). O método tradicional de afixação se dá por meio de anilhas, conforme mostrado na imagem.
A Primeira Guerra Púnica foi um conflito travado entre 264 e 241 a.C. que opôs Cartago à República de Roma, as maiores potências da região do Mediterrâneo da época. Foi a primeira de três guerras entre os dois povos, todas vencidas pelos romanos. As baixas e conseqüências econômicas do confronto foram muito altas para ambas as partes.
Antecedentes:
No meio do século III a.C., Roma já era uma força militar e dominava toda a península Itálica, seja por meio de guerras ou por alianças com outros grupos, dentre os quais as cidades gregas na península, tendo Tarento como a mais importante, que após o fracasso da invasão de Pirro (comandante grego que tentou dominar a Itália e a Sicília entre 280 e 275 a.C.) se renderam a Roma.
Cartago era uma potência comercial e marítima no Mediterrâneo, com portos no norte da África, península Ibérica e na Sicília. Cartago possuía uma inimizade histórica com Siracusa, cidade grega situada ao leste da ilha da Sicília, tendo ambas pretensões de dominar a ilha.
Cartago e Roma eram aliados comerciais e tinham inclusive combatidos junto contra Pirro, pouco mais de uma década antes do inicio da Primeira Guerra Púnica.
Assumindo o poder de Siracusa em 270 a.C., Hiero II decidiu reconquistar Messina e sitiou a cidade. Acuados, os Mamertinos pediram ajuda simultaneamente a Roma e a Cartago. Cartago viu no pedido de ajuda uma oportunidade de prejudicar Siracusa e aumentar seu poder na Sicília e assim respondeu enviando tropas.
Apesar de os Mamertinos serem italianos, os romanos ficaram relutantes em ajudá-los contra Siracusa, principalmente por terem sofrido em Rhegium um conflito semelhante contra mercenários, mas temiam um aumento do poder de Cartago em suas vizinhanças.
Quando Roma decidiu ajudar os Mamertinos, Cartago já comandava Messina, mas os mercenários preferiram entregar o poder para os romanos. Enfurecida, Cartago se aliou a Hiero contra a nova ameaça ao seu poder na Sicília: os romanos.
A guerra antes envolvendo o controle de uma cidade nas mãos de mercenários, tornou um conflito entre as maiores forças da região do mediterrâneo.
Os Combates:
Apesar de estar cercado por dois fortes inimigos, os romanos comandados pelo cônsul Appius Claudius atacaram e venceram primeiro as tropas de Siracusa, e em seguida as de Cartago, forçando-os a recuar e fugir em desordem. Com o sucesso e a ida de novas tropas sob comando do novo cônsul Manius Valerius Messalla, os romanos atacaram e sitiaram Siracusa, forçando Hiero a mudar de lado no conflito, se aliando a Roma contra Cartago em 263 a.C.
Com a situação desfavorável, Cartago passou a utilizar exércitos mercenários e concentrou sua força na cidade de Agrigentum (atual Agrigento), principal cidade na Sicília sob seu domínio. Em 262 a.C., Roma começou um grande e demorado cerco à cidade. Aníbal Grisco, o comandante das tropas sitiadas, pediu por reforços e mantimentos para Cartago e Hanno foi mandado com tropas e elefantes para ajudá-lo. Hanno conseguiu significativas vitórias atacando as linhas de suprimentos do exercito romano, mas devido à situação (fome e deserções nas tropas de Grisco que continuavam sitiadas), Hanno teve que partir para uma batalha contra as tropas principais de Roma. A batalha de Agrigentum terminou com vitória dos romanos, apesar de Grisco ter conseguido fugir com a maior parte de suas tropas abandonando a cidade para os inimigos.
Até o começo da guerra, Roma não possuía nenhuma experiência naval, mas com a ajuda das cidades gregas sob seu domínio, produziu uma frota de 100 quinqueremes e 20 triremes, a partir de navios capturados de Cartago.
A primeira batalha naval (Batalha de Lipari), foi travada próximo às Ilhas Eólias e terminou com derrota das inexperientes forças romanas. Pouco depois, em uma batalha maior (Batalha de Mylae), os romanos alcançaram sua primeira vitória naval, sob o comando do cônsul Gaius Duilius, que passou a ser tido como um herói em Roma. Essa e as demais vitórias romanas na fase inicial da guerra se devem em grande parte a um novo dispositivo que passou a equipar os navios romanos: o corvus. O corvus era uma espécie de ponte que os romanos prendiam nos navios inimigos ao se aproximar e assim tomavam o navio, utilizando sua superioridade no combate homem a homem. Com essa tática, Roma acabou com o domínio marítimo de Cartago, vencendo as batalhas de Sulci (258 a.C.) e Tyndaris (257 a.C.).
Em 256 a.C., uma grande força com cerca de 330 navios foi montada sob o comando dos cônsules Marcus Atilius Regulus e Lucius Manlius Vulso para invadir o Norte da África. Cartago, ciente desta ameaça, enviou sua frota para barrar o ataque. Os generais Hanno e Hamilcar (conhecidos por suas ações em Agrigento e Paropus) foram postos no comando da frota de Cartago. Quando essas duas forças se enfrentaram a sudeste da Sicília na batalha de Ecnomus, na maior batalha naval da antiguidade, a frota romana saiu vitoriosa, podendo seguir para o ataque aos territórios de Cartago na África.
Entretanto as condições impostas pelos romanos foram tão severas que o acordo não foi concretizado.
Sem acordo, Cartago contratou o general mercenário espartano Xanthippus para organizar sua defesa contra as legiões romanas. Xanthippus enfrentou Regulus na batalha de Tunis, onde os romanos sofreram pesada derrota.
Devido à tragédia, Roma teve que construir uma nova frota rapidamente. Essa frota foi mandada para Sicília onde conquistou a cidade de Panormus (atual Palermo), a mais importante sob o domínio de Cartago.
Após a vitória, parte da frota foi para África onde atacou algumas cidades, mas no retorno foi novamente surpreendida por tempestades, perdendo cerca de 150 navios.
Cerco de Lilybaeum:
Após alguns anos sem maiores batalhas, Cartago tentou reconquistar Panormus (atual Palermo), mas foi derrotada. A vitória reanimou e encorajou as forças de Roma, que tinha acabado de reconstruir sua frota. Roma cercou por terra e por mar Lilybaeum (atual Marsala), a última cidade de Cartago na Sicília. Cartago mandou reforços para a cidade, que sob comando de Himilco vinha conseguindo se defender.
A frota de Cartago sob comando do almirante Aderbal se encontrava próxima e apesar do cerco, vinha conseguindo enviar suprimentos para a cidade.
Para terminar com esse problema, o cônsul Publius Claudius Pulcher decide atacar a frota inimiga de surpresa, mas o ataque a Drepana (atual Trapani) é um fracasso completo, tornando a batalha de Drepana a maior derrota naval dos romanos na guerra. Pouco depois, o resto da frota romana que não havia participado da batalha foi destruída por tempestades enquanto tentava cercar a frota de Aderbal. Depois disso, Cartago voltou a ter o domínio marítimo na guerra e Roma ficou anos sem construir uma nova frota.
Em terra, o cerco a Marsala e à base naval de Trapani continuou, mas sem maiores avanços.
Assustada com o rumo que a guerra estava tomando, Roma nomeia Aulus Atilius Caiatinus para ditador.
Como o Estado não tinha mais condições de bancar essa nova frota, ela foi custeada pelos cidadãos ricos que se organizaram em pequenos grupos cada um dos quais construindo um navio. Assim Roma, mesmo falida pela guerra que já se estendia por mais de 20 anos, conseguiu uma nova frota de 200 navios.
Em 242 a.C., a nova frota foi mandada para as proximidades de Lylibaeum (atual Marsala). Ao saber da inesperada força naval romana, Cartago mandou sua frota com suprimentos esperando que chegasse à base de Amílcar, onde embarcaria os experientes marinheiros sob seu comando. Entretanto a frota foi avistada, o que resultou na batalha das Ilhas Aegates (Ilhas Égadi) ganha pelos romanos. A cidade de Marsala acabou dominada, restando na Sicília apenas a base de Amílcar, isolada e sem suprimentos que chegavam por mar.
Cartago, sem recursos para tentar qualquer manobra na guerra, aceitou a derrota e, sob o comando de Amílcar, negociou um tratado de paz com Roma, pondo fim à guerra.
Para determinar as fronteiras finais de seus territórios, fizeram uma linha reta através do mediterrâneo. Espanha, Córsega, Sardenha e África permaneceram com Cartago. Tudo ao norte dessa linha foi incorporado por Roma.
A vitória de Roma foi influenciada extremamente por sua recusa persistente em admitir a derrota e aceitando somente a vitória total. Além disso, a habilidade da república de atrair investimentos privados no esforço de guerra, usando o patriotismo dos seus cidadãos para bancar navios e tripulação, foi um dos fatores decisivos na guerra, principalmente quando comparado com o descaso aparente da nobreza de Cartago em arriscar suas fortunas para o bem comum. O fim da primeira guerra Púnica resultou também no nascimento oficial da marinha romana, que no futuro proporcionou a expansão do Império Romano.
• Evacuar a Sicília;
• Libertar seus prisioneiros de guerra sem resgate, mas pagar resgates para que os seus fossem libertados;
• Não atacar Siracusa e aliados;
• Transferir para Roma um grupo de pequenas ilhas ao Norte da Sicília;
• Evacuar todas as pequenas ilhas entre a Sicília e a África;
• Pagar uma indenização de 2200 talentos em dez prestações anuais, mais uma indenização adicional de 1000 talentos imediatamente.
Outras cláusulas determinavam que os aliados de cada lado não seriam atacados pelos do outro e ambos os lados foram proibidos de levantar tropas dentro do território do outro. Isto impedia Cartago de usar forças mercenárias romanas.
Entretanto, considerando que (excluindo vítimas da guerra terrestre):
• Roma perdeu 700 navios (principalmente devido ao mau tempo e aos líderes incompetentes) e ao menos parte de suas tripulações;
• Cartago perdeu 500 navios e ao menos parte de suas tripulações;
• Cada navio tinha aproximadamente 100 homens.
Chega-se à conclusão que, embora incertas, as vítimas eram definitivamente pesadas para ambos os lados. O historiador Políbio comentou que a guerra foi, até então, o mais destrutivo em termos de vítimas na história das guerras, incluindo as batalhas de Alexandre, o Grande, o que pode dar uma idéia da dimensão do conflito. Olhando os dados do censo romano do século III a.C., Adrian Goldsworthy notou que durante o conflito Roma perdeu aproximadamente 50.000 cidadãos. Isto exclui tropas auxiliares e os homens no exército sem status de cidadão, que estariam de fora da contagem principal.
Talvez o resultado político mais imediato da Primeira Guerra púnica tenha sido a queda de Cartago como um poder naval principal. As condições assinadas no tratado da paz comprometeram a situação econômica de Cartago e impediram a recuperação da cidade. A indenização exigida pelos romanos causou uma tensão adicional nas finanças, forçando a cidade a olhar para outras áreas de influência para obter o dinheiro para pagar Roma. Isso resultou numa ocupação cada vez mais agressiva nas colônias de Hispania (atual Espanha), o que mais tarde causou a Segunda Guerra Púnica.
Uma comparação interessante pode ser feita com a política da Alemanha após a derrota na Primeira Guerra Mundial. O tratado de Versalhes levou à crise econômica e por conseqüência a Segunda Guerra Mundial.
Para Roma, o fim da Primeira guerra púnica marcou o começo da expansão além da península Itálica. A Sicília transformou-se na primeira província romana governada por um praetor, em vez de um aliado. A Sicília se tornaria muito importante para Roma como uma fonte de cereais. Em 238 a.C. Roma anexou a Sardenha como outra província e a Córsega como um território (ambos perdidos por Cartago).
Primeira Guerra Samnita (343 a 341 a.C.):
Durante anos, os povos que viviam nos Montes Apeninos haviam lutado para expandir-se até as terras baixas da Campânia e da costa do Mar Tirreno, mas tanto etruscos como latinos haviam impedido estas invasões. Os samnitas eram uma destas rudes tribos apeninas que haviam se expandido até a costa da Campânia, onde tiveram contato com a mais avançada civilização grega, e que se supunha sua saída natural para o mar para dominar, assim, os mercados do Mar Tirreno. Por sua vez, os bruttios e os lucanos pressionavam as colônias gregas da Magna Grécia, sendo Tarento (atual Taranto) a principal delas.
A Primeira Guerra Samnita foi breve, entre 343 e 341 a.C. Após derrotarem os auruncos, os romanos visavam conquistar também a Campânia, consolidando a fronteira oriental que, mediante o Rio Liris, colocaria em contato a República Romana com o Sâmnio. Os samnitas, por sua vez, começaram a pressionar os sidicinos da cidade de Cales, os quais buscaram a ajuda de Capua. Contudo, Capua foi derrotada pelos samnitas e então foi solicitada a ajuda de Roma. Desta forma, Roma teve a desculpa necessária para atacar seus antigos aliados, devido ao crescente interesse em expandir suas redes comerciais fora do Lácio e monopolizar os centros comerciais, visando diminuir sua dependência da agricultura.
Os romanos, comandados por Marco Valério Corvo, obtiveram algumas vitórias em Campânia e no próprio Sâmnio. Contudo, a guerra não foi bem vista em alguns setores da sociedade romana. Houve, inclusive, rebeliões em algumas guarnições romanas em Campânia, que foram reprimidas por Valerio Corvo.
A guerra terminaria, anos mais tarde, com um compromisso de paz no qual os samnitas reconheceram a adesão de Capua a Roma e dos interesses romanos em Campânia. Os romanos, por sua vez, entregaram os territórios sidicinos ao domínio samnita. Imediatamente, os aliados latinos de Roma se rebelaram contra esta, já que foram obrigados a lutar contra os samnitas sem serem consultados e se sentiram oprimidos pelo controle que Roma exercia sobre eles, razão pela qual ocorreu a Segunda Guerra Latina.
Segunda Guerra Samnita (326 a 304 a.C.):
É possível distinguir duas fases do enfrentamento. Na primeira fase (327-321 a.C.), os romanos trataram de cercar o território samnita. Contudo, em 321 a.C., os samnitas cercaram o exército romano nas Forcas Caudinas, permitindo sua retirada em condições humilhantes. Em 316 a.C., Roma reiniciou os combates, mas foi novamente derrotada na Batalha de Lautulae (315 a.C.). Sua estratégia seguinte foi a construção da Via Apia, que a comunicava com Capua, fundando colônias ao longo de seu percurso para encerrar os samnitas dentro de seu território.
Em 310 a.C., os romanos venceram os etruscos (aliados samnitas desde 311 a.C.) na Batalha do Lago Vadimon, às margens do Rio Tibre. Após o avanço sobre a Apulia, os romanos tomaram Boviano, a capital samnita.
No fim da segunda guerra, em 304 a.C., Roma apoderou-se da Campânia.
A Terceira Guerra Samnita ocorreu entre 298 e 290 a.C. Os samnitas organizaram uma coalizão contra Roma com etruscos, sabinos, lucanos, umbros e celtas do norte da Península Itálica. Roma obteve vitórias fazendo frente a todos eles e reocupou Boviano em 298 a.C. As tropas samnitas fugiram para o norte atrás de etruscos e celtas e, em 295 a.C., a aliança lutou contra os romanos na Batalha de Sentino, na qual foram derrotados.
Após firmar a paz com os etruscos, Roma fundou a colônia Venusia, em Apúlia, para conter os samnitas, que finalmente se renderam em 290 a.C. Desde então, os samnitas foram obrigados a ceder tropas auxiliares para Roma, sendo paulatinamente assimilados pela cultura romana.


