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A honra é uma coisa que não achamos e sim conquistamos!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Quarta Guerra Macedônica (150 a 148 a.C.)

Na macedônia, um aventureiro chamado Adrisco, natural de Mysia, deu-se por filho natural de Perseu, e tomou o nome de Felipe; mas não quis a nação reconhecer um pretendente ao trono, que não tinha nem exércitos, nem tesouros. Adrisco refugiou-se para a côrte de Demétrio Soter, que havia casado com uma irmã de Perseu. Demétrio entregou aos romanos seu suposto sobrinho. Guardado sem precauções, ele foge, e na Thracia reune um exército para voltar a Macedônia. Favorecido pelo descontentamento do povo, foi sem oposição aclamado rei(152). Não satisfeito com tão brilhante sorte, ele atacou a Thessalia, e subjeitou parte dela a suas leis. Desiguinou o senador Cipião Nasica para ir, como comissário, acabar com esse tumulto(148). Chegando a Grécia, achou Nasica mais grave o mal do que supunhão em Roma. No entanto, com o socorro dos aliados da república, ele consegue expulsar Adrisco de Thessalia, e encerra-lo na Macedônia. Nesse tempo Julvêncio Thalma parte a frente de um exército. Despresando o inimigo, o ataca sem cautela, é vencido e morto. Orgulhoso por essa vitória, Adrisco mostra-se o mais estúpido e cruel tirano. Q. Cecilio Matelo, que substituiu a Juvêncio, sofreu pouca perda em um combate de cavalaria. Julgou-se o tirano bastante forte, para dividir suas tropas, e conservar suas conquistas da Thessalia: perde essa divisão. Ataca Matelo na Macedônia, vence e o afugenta. Adrisco apresenta-se outra vez com um exército de Thraces, arrisca outra batalhia, é igualmente vencido, e foge para Thracia. Traido pelo principe, a quem pedio asilio, foi entregue aos romanos, que o levarão para Roma carregado de ferros.

Matelo, que tinha o apelido de Macedônico, teve ainda que dessipar o partido de um povo impostor, que a imitação de Adrisco, queria dar-se por filho de Perseu, e tinha o nome de Alexandre(146). No ano seguinte, foi a Macedônia reduzida em provincia romana. Julgava-se então Roma em estado de renunciar aos insidiosos fingimentos, por meio dos quaes tinha em sua dependência os estados do Oriente. A Grécia ia sofrer sorte igual a da Macedônia.
Terceira Guerra Macedônica (171 a 168 a.C.)

Filipe não se contentara com fortalecer-se à custa da Liga Etólia, apoderando-se também de Demetríade e de um grande número de cidades tessálicas, de algumas cidades da costa trácia, etc.

Já pela paz de 189 os romanos haviam visado manter a Liga Etólia como contrapeso ao poder macedónico.

Seis anos mais tarde, com base nos protestos de Êumenes e de outros inimigos gregos de Filipe, Roma obriga Filipe a abandonar as cidades da Trácia e algumas regiões da Grécia. As relações tornaram-se então tão tensas que Filipe teve de enviar a Roma uma embaixada extraordinária, encabeçada pelo seu filho Demétrio (vivera anteriormente alguns anos em Roma, como refém), bem-visto pelos romanos, que o desejavam atrair para a sua órbita de influência (o sucessor no trono era Perseu, o primogénito; a protecção romana a Demétrio provocará a sua condenação à morte em 181).

Filipe procura então expandir-se na Trácia interior. Depois de várias campanhas, alarga a sua influência nessa região e celebra um tratado de aliança com as tribos de além Danúbio.

Em 179 morre, deixando a Perseus um Estado militarmente forte e bem organizado.

Perseu estabelecera óptimas relações com Prúsias II da Bitínia e Seleuco IV da Síria, de quem era genro. Os ródios eram seus amigos, os bastarnos, seus aliados (Bastarnae; um povo da Dácia) e entre os príncipes ilírios a influência macedónia suplantava a de Roma.

Abandonando a política de hostilidade que o pai sempre havia seguido, Perseu procurou o apoio dos gregos.

Com o correr dos anos crescera na Grécia o ódio aos romanos, tanto nas classes baixas como entre as classes altas. Aproveitando a conjuntura, Perses (a outra designação latina do seu nome) decide apresentar-se como o novo “salvador”. Faz proclamar na Grécia que os perseguidos por motivos políticos ou por dívidas seriam acolhidos na Macedónia, prometendo ainda aos refugiados reintegrá-los nos seus direitos e restituir-lhes as suas propriedades. Com esta política demagógica Perseu terá alienado as classes possidentes, lançando-as nos braços do partido pró-romano.

Em 172 Êumenes vai a Roma apresentar as suas queixas contra Perseu. O senado decide-se então pela guerra com a Macedónia. Na viagem de regresso a Pérgamo, Êumenes é vítima de um atentado em Delfos, que logo foi atribuído a Perseu.

Os romanos prepararam cuidadosamente a guerra a nível militar e diplomático. Quando a iniciam, em 171, Perseu estava completamente isolado.

A Liga Aqueia, como sempre, apoiava os romanos. Os etólios, que pouco tempo antes solicitavam a ajuda de Perseu, haviam mudado bruscamente de opinião. Na Tessália o partido pró-romano detinha o poder. Mesmo a Beócia, durante muito tempo aliada da Macedónia, se afastou de Perseu.

O mesmo acontecera entre os seus amigos não gregos. Roma contava com o apoio das cidades livres da Ásia Menor, de uma parte dos ilírios, de Rodes, Bizâncio, etc. Prúsias II permaneceu neutral e Antíoco IV, irmão e sucessor de Seleuco IV, seguindo a “tradição”, aproveitou a ocasião para atacar o Egipto.

No entanto, no primeiro confronto importante, na Tessália, a cavalaria e a infantaria ligeira romanas sofrem uma derrota. Em vez de explorar esse êxito, Perseu procurou entabular negociações de paz. Mas os romanos exigiram-lhe a rendição incondicional.

O mando romano não estava à altura da situação, e os soldados provocaram o descontentamento da população com as suas violências e queixas por parte dos aliados. Contudo, apesar das circunstâncias se lhe apresentarem favoráveis, Perseu retirou da Tessália para a Macedónia.

As duas campanhas seguintes, em 170 e 169, não deram vantagem a qualquer das partes.

Nesses dois anos Perseu desenvolveu uma intensa actividade diplomática, alcançando alguns êxitos, devidos sobretudo ao reaparecimento da frota macedónia no Egeu e à aparente incapacidade de Roma em ganhar a guerra.

Em 168 os ródios, cujo comércio sofria grandes perdas com a guerra, tentam mediar o termo do conflito, mas o resultado que obtêm é precisamente o oposto, com o senado a tomar a decisão de intensificar a guerra.

Um dos cônsules eleitos para 168 foi Lúcio Emílio Paulo (filho do Emílio Paulo caído em Canas). Um homem sem fortuna, ainda que pertencendo à velha nobreza, e sem grande influência na vida política (teria, talvez, vínculos de parentesco com os Cipiões). Mas gozava da fama de ser um excelente chefe militar, tendo-se revelado como tal nas guerras espanholas e lígures, e de possuir uma honestidade a toda a prova.

Chegado ao teatro de operações rapidamente restabelece a disciplina e passa à acção ofensiva. Circundando as posições de Perseu na Macedónia do sul, obriga-o a retirar para a cidade costeira de Pydna.

A 22 de Junho de 168 dá-se a batalha que pôs fim à monarquia macedónia.

O primeiro choque da falange macedónia destroçou a frente romana e obrigou as legiões a retirar para as elevações próximas do acampamento romano. Na perseguição, naquele terreno acidentado, as fileiras da falange desarticulam-se e Emílio passa ao contra-ataque. Lançando os manípulos nos espaços abertos entre os macedónios, ataca-os nos flancos e pela retaguarda, acabando por lhes romper de todo a formação. A cavalaria macedónia, estranhamente, permaneceu inactiva e, ao ver a infantaria ser derrotada, afastou-se do campo de batalha. Perseu, apenas se preocupando com a salvação dos seus tesouros, foi o primeiro a pôr-se em fuga.

Em menos de uma hora tudo terminara. 20.000 macedónios caem no campo de batalha e 11.000 são feitos prisioneiros. As perdas dos romanos foram insignificantes.

Perseu foge com o seu ouro (mais de 6.000 talentos) para Samothracia (ilha do norte do Egeu), na vã esperança de gozar do direito de asilo sagrado. Mas é obrigado a entregar-se com todas as suas riquezas e os seus dois filhos. Internado na Itália, ali morrerá passados alguns anos. O primogénito, Filipe, morre dois anos após o pai. O seu filho mais novo tornar-se-á um simples escrivão.

Apesar da queda dos Cipiões, a sua política foi mantida e a Macedónia não se transformou em província.

A monarquia foi destruída e o país foi dividido em quatro repúblicas “independentes”, completamente isoladas umas das outras. Os habitantes de cada república não podiam contrair matrimónio nem estabelecer comércio com os das restantes. Todas as relações entre elas eram interditas. Em cada uma Roma colocou no poder a parte da aristocracia que lhe era fiel. A metade dos impostos pagos anteriormente aos reis passa agora a ser arrecadada pelos romanos. Foi proibido aos macedónios trabalhar o ouro e a prata, exportar madeira e importar sal. A população foi desarmada e as fortalezas desmanteladas.

Segundo este mesmo modelo são constituídas outras três repúblicas na Ilíria.

O Epiro, que apoiara Perseu, teve “direito” a um tratamento particular. Por ordem do senado, em 167, setenta distritos são saqueados e 150.000 habitantes reduzidos à escravatura. O saque foi tal que em Roma será abolido, por muito tempo, o imposto directo sobre os cidadãos.

Destruída a Macedónia, Roma já não necessitava de amigos e aliados no mundo grego.

Se bem que a Grécia haja continuado a ser nominalmente “livre”, perdeu os últimos restos da sua independência.

A Liga Etólia foi reduzida ao território da própria Etólia e os partidários dos macedónios foram em parte entregues aos seus inimigos políticos, em parte levados para Roma.

Em todos os Estados gregos os elementos suspeitos foram feitos reféns e enviados para a Itália. Nem a Liga Aqueia escapou, 1.000 nobres aqueus, entre os quais Políbio, são internados em diferentes cidades italianas.

A Rodes é arrebatada grande parte das suas possessões no continente e o seu comércio sofre um duro golpe com a proibição do comércio da madeira e do sal macedónios. A catástrofe chega quando Delos é declarada porto livre.

Os romanos expulsaram os habitantes desta ilha e entregaram o porto aos atenienses, sendo o seu comércio isento de todos os impostos e taxas. O comércio do Mediterrâneo oriental passou a fazer-se através de Delos. No decurso de um só ano, as receitas aduaneiras de Rodes diminuíram de um milhão para cento e cinquenta mil dracmas.

O próprio Êumenes de Pérgamo, o fiel amigo, cai em desgraça, nada tendo recebido no final da guerra. Roma apoiará contra Êumenes o seu irmão Átalo e chegou até a instigar-lhe os súbditos a sublevarem-se. Quando Êumenes se desloca a Roma para tentar esclarecer os mal-entendidos (acusavam-no de ter mantido contactos secretos com Perseu) dão-lhe a perceber que a sua presença não era grata.

Exemplo da atitude que Roma tomou no Oriente, “no após 168”, foi a sua intervenção na guerra entre a Síria e o Egipto. Antíoco IV chegara em 168 ante as muralhas de Alexandria e os egípcios pediram a ajuda de Roma, que envia de imediato um embaixador, Caio Popílio. Este apresenta-se perante o sírio e transmite-lhe a ordem do senado: restituir tudo quanto havia conquistado e retirar-se do Egipto. Havendo Antíoco IV pedido algum tempo para reflectir, Popílio traça com uma cana um círculo à volta do monarca sírio e exige-lhe que desse a resposta sem dali sair...Antíoco terá obedecido.

Segunda Guerra Macedônica(200 a 196 a.C.)

No Verão de 201 chegam a Roma embaixadores de Rodes e Pérgamo a solicitar a ajuda do senado. Já antes ali se apresentara um embaixador egípcio, pedindo a Roma que tomasse sob a sua tutela Ptolemeu V.

A Itália estava exangue, a sua população havia diminuído, a dívida pública, sob a forma de empréstimo obrigatório (tributum), atingia uma cifra colossal e o povo almejava a paz. No entanto, após uma larga discussão, o senado decidiu-se pela guerra. Com Antíoco, Roma não tivera ainda qualquer conflito. Para se justificarem perante o povo, os senadores urdem o enredo da ameaça macedónia e da necessidade de levar a cabo, contra ela, uma guerra preventiva (Lívio, XXXI, 7). Ao olhos do senado, com Antíoco ocupado na Palestina e tendo Filipe sofrido a derrota na Ásia Menor, a ocasião era particularmente propícia.

Nos círculos dirigentes romanos, com a última guerra, tornara-se predominante a facção que defendia uma política internacional de agressão permanente.

A economia esclavagista progredira consideravelmente, existindo agora um bem maior número de grandes propriedades. O mesmo se passara ao nível das operações financeiras e do comércio por grosso. Difundira-se a circulação do dinheiro. A nobreza e a classe rica em geral começavam a apreciar o modo de vida refinado. Tudo isso vinha reforçar a influência da facção agressiva.

Na Primavera de 200 são enviados três embaixadores à península balcânica com a missão de atrair os Estados gregos a uma grande coligação antimacedónia. Deviam também apresentar a Filipe uma série de exigências provocatórias, impossíveis de aceitar.

A primeira missão falhou, recusando-se as comunidades gregas a qualquer compromisso com os romanos. Só Atenas, já em conflito aberto com Filipe, lhe declarou a guerra.

Mas a missão prosseguiu. Um dos embaixadores apresenta-se perante Filipe, que então assediava Abido (Abydus, no Helesponto), e faz-lhe o ultimato. Devia cessar todas as operações bélicas contra os gregos, restituir ao Egipto todas as possessões tomadas e submeter a um tribunal os litígios entre a Macedónia, Pérgamo e Rodes. Filipe recusa o ultimato e Roma, por decisão dos comícios, declara-lhe a guerra.

Na primeira votação as centúrias recusaram a rogatio. Só após a insistência do cônsul, numa segunda votação, a declaração de guerra foi aprovada (Lívio, XXXI, 6-8).

No Outono desse ano (200), duas legiões de voluntários (recrutados entre os veteranos da II guerra púnica) comandados pelo cônsul Públio Sulpício desembarcam em Apolónia e começam a guerra com o ataque às possessões ilírias de Filipe. Ao mesmo tempo, também Atenas passa à ofensiva.

Enquanto isso a embaixada romana prosseguia a sua acção diplomática, tratando agora de garantir a neutralidade de Antíoco no conflito. Ainda que haja evitado dar uma resposta definitiva, Antíoco manter-se-á de facto neutral em todo o decurso da guerra. Deixando Filipe entregue à sua sorte, preferiu aproveitar a situação para se apoderar das possessões egípcias na Síria.

Os etólios entram também em guerra contra Filipe. Os dárdanos e os ilírios foram desde o início aliados dos romanos. As frotas de Rodes e Pérgamo actuaram em coordenação com a romana no Mar Egeu e ao largo das costas macedónias.

No Verão de 199 Sulpício atravessa a Ilíria e irrompe na Macedónia do norte. Dada a superioridade numérica dos romanos Filipe recusa-lhes batalha. No Outono os romanos regressam às suas bases ilírias. Filipe aproveita para atacar os dárdanos no norte e, ao sul, os etólios, que haviam penetrado na Tessália.

Na campanha do ano seguinte os romanos tentam fazer junção, já em território grego, com as forças dos etólios. Mas as tropas de Filipe ocupam as passagens montanhosas entre o Epiro e a Tessália, obrigando os romanos a deterem-se nas proximidades do acampamento macedónio.

Chega então ao teatro de guerra o cônsul desse ano de 198, um membro do círculo íntimo dos Cipiões, Tito Quíncio Flamínio, enérgico, hábil e extremamente ambicioso. Admirador ardente da cultura grega, Flamínio resolvera “enfiar-se na pele” de libertador da Grécia do jugo macedónio. Imediatamente após a sua chegada propõe a realização de conversações de paz, apresentando como condição principal a evacuação pelos macedónios de todos os territórios gregos ocupados. Filipe recusa a proposta.

Com a ajuda de guias locais (epirotas), Flamínio consegue penetrar no sistema defensivo macedónio do Epiro, e Filipe retira para o vale de Tempe (actual Tembi), na Tessália. Os romanos seguem-no e reúnem-se aos aliados gregos.

Entretanto a frota aliada abeirara-se de Corinto, a principal praça-forte macedónia na Grécia, e a Liga Aqueia, sob forte pressão, rompia com Filipe, juntando-se aos seus inimigos.

No Inverno de 198/197, apresentando-se a situação bem menos favorável para a Macedónia, Filipe aceita iniciar negociações. Mas não se chega a nenhum acordo.

O isolamento de Filipe aumenta. Mesmo velhos aliados seus, o tirano espartano Nábis e a Beócia, passam-se ao lado contrário. Decidido a travar uma batalha decisiva, Filipe reúne todas as suas reservas, incorporando até os jovens de 16 anos de idade.

Em Junho de 197, na Tessália, sobre as colinas Cynoscephalae (= “cabeças de cão”), dá-se o recontro. As forças eram quase iguais, cerca de 26.000 homens para cada um dos lados. Filipe sofre uma derrota completa, perdendo mais de metade das tropas. Regressado à Macedónia, envia embaixadores a Flamínio para as negociações de paz.

Antíoco encontrava-se então na Ásia Menor, com o exército e a frota. Flamínio receava que o sírio interviesse em auxílio da Macedónia e aceitou as conversações. É convencionado um armistício de 4 meses contra o pagamento de 200 talentos e a entrega de reféns.

O texto definitivo do tratado foi redigido por uma comissão governamental romana de dez membros com a participação de Flamínio. Filipe renunciava a todas as suas conquistas. Abandonava todos os territórios na Grécia. Entregava a frota de guerra, à excepção de algumas naves. Entregava os prisioneiros de guerra e os desertores. Tinha de pagar um tributo de 1.000 talentos, metade de imediato e a outra metade em dez prestações anuais consecutivas. O tratado foi ratificado no ano de 196.

Guerras Macedônicas


Primeira Guerra Macedónica (215 a 205 a.C.)


Filipe V seguira atentamente o curso da guerra. Após a batalha do Trasimeno, em Setembro de 217 acorda a paz com os etólios em Naupactos, tratando de ter as mãos livres, e de imediato inicia operações militares na Ilíria.

No início do Verão de 216 a frota macedónia entra no Mar Jónico, navegando para norte, quase até Apolónia. Informado da aproximação dos romanos (que só tinham dez naves de linha), Filipe amedronta-se e volta à Macedónia.

No Verão de 215 chegam ao campo de Aníbal embaixadores de Filipe. É celebrado um tratado preliminar. Políbio (fragmento do livro VII): «Deste modo juram o comandante Aníbal, Magão, Mircão, Barmocar, todos os membros do conselho de anciãos cartaginês que se encontram junto dele e todos os cartagineses que participam da sua expedição, ao ateniense Xenófanes, filho de Cleómaco, enviado do rei Filipe, filho de Demétrio, por conta dos macedónios e dos seus aliados: ante Zeus, Hera e Apolo; ante os génios cartagineses, Hércules e Iolau; ante Ares, Tritão e Poseidon; ante os deuses reunidos do Sol, da Lua e da Terra; ante os rios, os golfos e as águas; ante todos os deuses que dominam sobre Cartago; ante todos os deuses que dominam sobre a Macedónia e o resto da Hélade; ante todas as divindades da guerra que presenciam este juramento...» A Macedónia comprometia-se a fazer guerra a Roma em aliança com Cartago, reconhecendo os cartagineses os direitos de Filipe sobre as costas ilírias, Corcira, Apolónia, Epidamno e outras cidades. Os aliados estavam obrigados a prestarem-se ajuda mútua com o envio de contingentes armados aonde deles houvesse necessidade. Terminada que fosse a guerra, a aliança assumiria um carácter defensivo contra eventuais ataques da parte de Roma. Filipe contaria com a ajuda da frota cartaginesa e Aníbal com a ajuda dos macedónios na Itália.

Mas a ratificação do tratado pelo rei da Macedónia e pelo senado cartaginês sofreu uma série de atrasos. Quando regressavam do acampamento de Aníbal, os embaixadores macedónios foram aprisionados pelos romanos, o que obrigou Filipe a enviar nova embaixada. Perderam-se assim 6 meses.

Havendo tido conhecimento do tratado Roma toma medidas preventivas, designando o pretor Marco Valério Levino para vigiar as águas do Adriático com uma esquadra e um exército.

Assim, quando no Verão de 214 Filipe surge de novo no Adriático e tenta cercar Apolónia, os romanos puderam enviar reforços à cidade. O acampamento macedónio foi tomado e saqueado, com a frota romana a cortar a retirada por mar a Filipe, obrigando-o a queimar os seus navios e a regressar por terra.

Os romanos estabelecem-se solidamente sobre a costa ilíria.

Filipe, não podendo contar com a ajuda da frota púnica, então ocupada nas operações na Sicília, permanecerá algum tempo inactivo.

Já em 213 os macedónios levarão a cabo bem sucedidas operações em terra, conseguindo reduzir os romanos a uma estreita faixa costeira.

Intervém então a diplomacia romana. Em 212 Levino estabelece contactos secretos com a Liga Etólica, concluindo com ela rapidamente um tratado. Os etólios actuariam por terra contra Filipe e os romanos no mar, com não menos de vinte e cinco embarcações de linha. Com a guerra os etólios ganhariam vantagens territoriais; os romanos, todo o despojo. Os romanos comprometiam-se ainda a ajudar os etólios na conquista da Acarnânia (região do Epiro). Ambas as partes se obrigavam a não fazer a paz por separado com Filipe.

A coligação antimacedónica depressa se estendeu à Élida, Esparta, Messénia e até a Átalo I, rei de Pérgamo. Entretanto o norte da Macedónia era atacado pelos ilírios e os dárdanos (habitantes de região do centro da península balcânica, a sul da Mésia).

Filipe defende-se e devasta impiedosamente os territórios gregos, em particular as regiões marítimas.

Em 208 as esquadras reunidas de Roma e Pérgamo encontraram-se frente à cartaginesa, vinda em auxílio de Filipe. Mas Átalo é obrigado a voltar a Pérgamo, ameaçado pela invasão de Prúsias, rei da Bitínia, e a frota cartaginesa comportou-se passivamente, não travando batalha.

Em 207, com Asdrúbal a entrar em Itália, sendo Roma obrigada a mobilizar todas as suas forças, Filipe aproveita e passa à ofensiva, cruzando a fronteira da Etólia e forçando a Liga a concluir uma paz por separado com a Macedónia. Aliás, já desde há algum tempo, vários países neutrais, o Egipto, Rodes (Rhodos) e outros vinham mediando negociações nesse sentido.

Roma viu-se de novo sozinha contra Filipe. Mas agora a situação era bem distinta, sendo quase certo que Aníbal iria perder a guerra. E o único objectivo dos romanos na sua política grega era o de impedir o auxílio aos púnicos.

A paz foi concluída em 205. Os romanos conservaram as suas possessões ilírias mais importantes. Mas as cidades gregas tiveram de ceder parte dos seus territórios no continente a Filipe.



segunda-feira, 29 de dezembro de 2008


Terceira guerra Púnica (149 a 146 a.C.)

A Terceira Guerra Púnica foi a última das guerras a opor Roma e Cartago (149 a.C. - 146 a.C.) tendo acabado com a derrota e destruição desta última às mãos dos romanos de Cipião Emiliano; diz a lenda ter sido provocada pela repetida afirmação no Senado, por parte Catão, o Velho
, de um dito que se tornou proverbial: delenda est Carthago (Cartago precisa ser destruída).Embora as duas partes estivessem em paz desde o fim da Segunda Guerra Púnica, Roma não conseguia ficar tranquila com a rival, pois mesmo com todos os embargos e imposições que o tratado de paz fixado entre as duas cidades na última guerra, Cartago, superando todas as adversidades, voltara a prosperar. Mas Roma não podia deixar a velha rival se erguer novamente, portanto usou um ardil muito usado na antiguidade. Como Cartago estava proibida de fazer guerra contra qualquer povo, sem o consentimento do senado romano, secretamente mandou seus novos aliados na África, os Numidas, a atacarem o território Cartaginês. Durante três anos o senado Cartagines implorou para Roma o direito de defesa, sempre sendo ignorado, claro, pelos romanos, até quando finalmente os Cartigeneses resolveram se defender, estava aí criado o pretexto que Roma precisava para atacar Cartago. Então, no ano 149 a.c. as legiões atacaram e cercaram a cidade de Cartago. Este sítio durou três anos, e segundo a lenda ele foi tão duro que as mulheres cartaginesas cortavam os cabelos para fazer corda e seus defensores lutavam dia e noite para defender sua cidade, que em 149 a.c. os romanos finalmente conseguiram adentrar, e mesmo assim tiveram que lutar ferozmente para vencer a resistência, pois os cartagineses defenderam cada metro quadrado, mas pacientemente os romanos foram tomando casa por casa até entrar na cidadela interna e vencer a última resistência. Da poderosa Cartago, restaram apenas um butim de 50.000 cativos aproximadamente e uma cidade em escombros. O ódio dos romanos era tão grande pela antiga rival que segundo a lenda, após a queda da cidade, ela foi totalmente destruída e sobre suas edificações o chão foi salgado para que nada ali crescesse. A tarefa foi tão bem executada que até hoje os arqueólogos não sabem o local exato da sua localização. A Cartago que aparece nos mapas romanos após as Guerras Púnicas é uma cidade fundada pela própria Roma como uma colônia.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Disse: Friedrich Schiller

"Não vale nada um povo que não sabe defender a honra da sua Pátria."
Disse: George Orwell

"O essencial da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas de produtos do trabalho humano. A guerra é um meio de despedaçar, ou de libertar na estratosfera, ou de afundar nas profundezas do mar, materiais que de outra forma teriam de ser usados para tornar as massas demasiado confortáveis e, portanto, com o passar do tempo, inteligentes. "

Disse: Heráclito

"A guerra é mãe e rainha de todas as coisas; alguns transforma em deuses, outros, em homens; de alguns faz escravos, de outros, homens livres."
Disse: Émile-Auguste Chartier

"A coragem alimenta as guerras, mas é o medo que as faz nascer."
Disse:Albert Einstein

"Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus. "

A Segunda Guerra Púnica(218 a 202 a.C.)

A Segunda Guerra Púnica foi possivelmente o acontecimento mais importante da Antigüidade ocidental, pois foi através da vitória neste conflito que Roma começou sua grande expansão. Ao final da guerra, os vitoriosos romanos tomaram o controle do Anatólia, anexaram a Península Ibérica, começaram a completar a subjugação da própria Península Itálica, firmaram alianças no norte da África e começaram sua expansão em direção ao Oriente, para a Ilíria, para a Grécia e para a Anatólia.

Foi um conflito demorado, que envolveu toda a bacia oeste do Mediterrâneo, estendendo-se da Península Ibérica até a Península Itálica e desde o sul da Gália até o norte da África.

Igualmente importante, foi a destruição do poderio cartaginês, decisivo para a equação de poder no ocidente por vários séculos, assim como as mudanças que muito contribuíram para a definitiva consolidação da forma do exército romano, que passou por importantes transformações no período.

Antecedentes:

A Segunda Guerra Púnica (De Poeni, em latim, "Fenício" e também "Pirata"), começou em conseqüência da Primeira Guerra Púnica. Ambas as nações saíram desta primeira guerra bastante prejudicadas pelos esforços e perdas despendidos no período, inclusive com as respectivas economias muito debilitadas. Mas a vitória deu a Roma diversas vantagens.

O tratado firmado entre as duas nações era consideravelmente mais brando do que o que seria imaginável após a vitória romana, mas na verdade os vitoriosos não teriam como impor um acordo mais forte, dada a situação a que o esforço de guerra reduzira a própria Roma.

Assim, em decorrência do tratado de paz, Roma recebe a Sicília, enquanto Cartago fica com a Sardenha e a Córsega. Na verdade, porém, aproveitando-se da paz ao sul, Roma aproveitou para expandir-se para o norte, após derrotar uma invasão gaulesa em 225 a.C., em Telamon, subseqüentemente conquistando a Gália Cisalpina, até o sopé dos Alpes, além de limpar o Adriático dos piratas e trazer para sua esfera de influência parte da Ilíria, após a guerra contra Teuta, chamada de Primeira Guerra Ilírica – trampolins naturais para os Bálcãs, a Macedônia e a Grécia.

Ao mesmo tempo, como conseqüência desta vitória, Roma, antes uma potência terrestre, passou a contar com uma marinha poderosa, além de consolidar definitivamente seu domínio sobre o sul da Península Itálica. Entrementes, a derrota provocou uma convulsão militar e política em Cartago (Cart-Hadash, "A Cidade Nova"), com a revolta dos mercenários, que se rebelaram pelo não- recebimento do soldo após terem sido retirados da Sicília e trazidos para o norte da ÁfricaLíbia, envolvendo berberes, alguns númidas e mesmo certas cidades fenícias.

Aproveitando-se desta instabilidade, Roma também ocupou a Sardenha e a Córsega e quando o general Amílcar Barca (Amílcar = "Aquele que o deus Melcarte protege", Barca = "raio") conseguiu debelar a revolta em uma guerra extremamente brutal de lado a lado, inclusive estendendo o território cartaginês para dentro da Numídia, os romanos haviam se aproveitado e ocupado ambas as ilhas. Os cartagineses protestaram, mas Roma, aproveitando a fragilidade destes, lhes declarou guerra, que só conseguiram evitar com o pagamento de uma enorme quantia e a entrega definitiva da Córsega e da Sardenha, possessões cartaginesas muito importantes pelos suprimentos de grãos e metais.

Buscando recuperar sua força anterior, Cartago passou a controlar a Numídia e a Argélia. Ao mesmo tempo, passou a investir cada vez mais no controle da Península Ibérica, onde de há muito possuía interesses, tarefa que foi confiada ao mesmo general Amílcar Barca. E, desta forma, um exército africano invade a península sob seu comando, em 237 a.C.

Realmente, o interesse de Cartago na Península Ibérica era plenamente justificado, devido as suas grandes reservas de metais, além da oportunidade que as tribos locais davam para a incorporação de celtiberos nos próprios exércitos cartagineses.

Amílcar Barca

Amílcar Barca era o mesmo comandante cartaginês que se destacara lutando na Sicília na Primeira Guerra Púnica. Pertencente a uma das mais respeitadas famílias de Cartago, que desenvolvia um processo de restauração da monarquia em proveito próprio, fora o principal responsável pela derrota da revolta dos mercenários. Paulatinamente, nos dezessete anos seguintes, os cartagineses que ele comandava impuseram seu domínio sobre o sul da península, ocupando a região entre o Mar Mediterrâneo e a Serra Morena e fazendo da localidade de Akra Leuke, a sede de seu domínio, dando início ao período bárquida na Península Ibérica, até que Amílcar, em 229 a.C., morreu em confronto com uma tribo local.

Seu cunhado Asdrúbal (Asdrúbal = "O ajudado de Baal") o sucedeu no comando. Este, além de pacificar as tribos ibéricas, escolheu como capital do novo domínio um velho povoado fenício que rebatizou de Nova Cartago (atual Cartagena), um dos melhores ancoradouros do Mar Mediterrâneo. Porém, Asdrúbal foi assassinado em 221 a.C. e, para substituí-lo, o exército escolheu o filho mais velho de Amílcar, que acompanhara o pai na invasão com a idade de nove anos e que na ocasião contava apenas 26 anos de idade, chamado de Aníbal Barca.

O início da Guerra

Aníbal Barca (Aníbal = "A graça de Baal"), assumiu o comando do exército com vinte e seis anos, decidido a completar a sujeição da Península Ibérica e dar continuidade ao plano cartaginês de ir à forra contra Roma.

Mas o governo de Cartago recusa-se a declarar guerra. Na verdade, Roma temia a eventualidade de uma aliança entre cartagineses e gauleses que a ameaçasse. Mas tentou agir primordialmente por meios diplomáticos, firmando em uma aliança com a colônia grega de Sagunto, na Península Ibérica, com a qual já possuía laços anteriores e que poderia ser muito útil em caso de uma guerra com Cartago na região.

Antes mesmo disto, porém, Asdrúbal firmara um tratado com Roma em 226 a.C., pelo qual os romanos reconheciam o direito dos cartagineses se estenderem até o rio Ebro, que divide a Península Ibérica ao meio e que representava o limite da expansão cartaginesa aceitável pelos romanos.

Modernamente, porém, muitos historiadores tem refutado o rio Ebro como sendo o rio do tratado, apontando diversas inconsistências para que ocupe esta posição, especialmente o fato de que a cidade de Sagunto encontra-se ao sul deste curso d'água, além de indicarem a inexistência de vestígios arqueológicos de presença cartaginesa mais ao norte. Tem-se apontado que este rio seria, na verdade, o rio Segura, ou outro rio meridional. Todavia, esta questão, objeto de grande discussão nos meios acadêmicos, ainda se encontra em aberto.

Na realidade, aparentemente a intenção de Aníbal consistia em justamente unir as tribos celtas na luta contra Roma e, posteriormente, afastar esta de seus aliados na Península Itálica, portanto dentro da evolução que os romanos temiam.

Talvez resolvido a provocar o conflito, Aníbal atacou e sitiou Sagunto. Embora esta cidade estivesse 120 quilômetros ao sul do Ebro e, portanto, no território permitido para a ocupação cartaginesa. Durante o cerco, o Senado Romano requereu que Aníbal desistisse da operação de guerra. Mas este se recusou a suspender o ataque. Em resposta, outra missão do Senado dirigiu-se desta vez a Cartago, com um ultimato para que Aníbal fosse entregue para julgamento em Roma. Quando o Conselho dos Cem, órgão superior do estado cartaginês recusou-se a entregar o comandante, Roma declarou guerra, em março de 218 a.C.

Da Península Ibérica até o Lago Trasimeno

Aníbal, porém, foi quem tomou a iniciativa, em vez de esperar as invasões romanas da Península Ibérica e da própria África, decidindo invadir a Península Itálica. Mas, em vez de partir por mar, seguiu em abril de 218 a.C. com seu exército pelo sul da Gália, visando transpor os Alpes e atacar Roma cruzando o vale do Rio Pó.

Para detê-lo, Roma enviou o cônsul Cornélio Cipião, pai de Cipião Africano, que buscou bloquear o avanço de Aníbal no rio Ródano. Mas o comandante cartaginês tomara outra rota, diferente da esperada, atravessando o rio mais acima, utilizando balsas para passar os elefantes, e infletindo para o norte, tomando a rota que conduzia ao vale do Rio Isere, objetivo bem mais complicado e distante que a rota pela Riviera, mas também muito mais difícil de ser defendido pelos romanos.

Percebendo a estratégia de Aníbal, Cipião retornou à Península Itálica por mar, com parte de suas forças, enquanto os cartagineses alcançavam o sopé da cadeia dos Alpes. Esta rota, na verdade, não era novidade, sendo o caminho habitual pelo qual os gauleses haviam invadido no passado a península, sendo que a razão de Aníbal optar por ele foi justamente tentar o apoio destas tribos na guerra contra Roma. Todavia, não conseguiu nenhum apoio na Gália Transalpina, pelo contrário enfrentando grande oposição das tribos que controlavam os passos na cadeia de montanhas. Assim, os cartagineses tiveram que lutar para alcançarem os cumes das montanhas, que lhes permitiam controlar o terreno. A jornada revela-se extremamente árdua, custando muitos homens para Aníbal. E embora números na Antigüidade sejam de difícil comprovação, calcula-se que Aníbal partira de sua base com mais de 45 mil homens, mantendo 38 mil infantes e 8 mil cavaleiros ao cruzar o Ródano, dos quais apenas cerca de 20 mil infantes e 6 mil cavaleiros chegaram à Gália Cisalpina. Mas finalmente, em setembro de 218 a.C., seu exército conseguiu atravessar para a Itália, apenas para ver os elefantes caírem doentes e morrerem no vale do Pó. Em compensação, a estratégia de Aníbal pegara os romanos despreparados, pois sua crença era de que os Alpes, verdadeira muralha, esmagariam o ânimo e a resistência de seus inimigos.

A primeira oposição que enfrentaram foi a de Cipião, na Lombardia. Lá, porém, Aníbal dispôs magistralmente de sua cavalaria e derrota duas vezes os romanos. Logo na primeira batalha, em outubro de 218 a.C., o comandante romano Cipião foi vencido pela cavalaria númida na Batalha do Ticino e, dois meses depois, em dezembro de 218 a.C., Semprônio Longo foi igualmente derrotado com uma armadilha feita pela cavalaria. Ato contínuo, Aníbal destruiu as duas colônias romanas na Gália Cisalpina, Cremona e Placência e, graças a estas vitórias e a lutarem em províncias recém conquistadas que viam Roma como uma invasora e conquistadora, chegam vários recrutas e muitos suprimentos para o exército cartaginês.

Ali, no norte da Itália, Aníbal passou o inverno. Antecipando-se aos movimentos dele e tencionando deter a invasão já claramente perigosa, Roma enviou dois exércitos ao norte, bloqueando a progressão de Aníbal pelas duas rotas possíveis: uma, no Adriático, que era Ariminum (atual Rimini) e outra na Etrúria, em Arretium (atual Arezzo). Tendo de escolher por um dos dois caminhos, Aníbal escolheu o de Arretium, pela Etrúria, em direção às tropas do cônsul Caio Flamínio.

Para esta investida, os cartagineses buscaram surpreender os romanos, optando por avançar através de pântanos, que atravessam com grandes custos ao longo de quatro dias e três noites, sofrendo grandes perdas em homens e animais. Mas todo seu sacrifício é compensado quando chegam a Arretium e encontraram os romanos ainda acampados, sem esperarem o ataque.

Todavia, em vez de avançar diretamente contra os romanos, Aníbal ultrapassou o acampamento de Flamínio e caiu sobre o distrito de Arretium. Vendo a destruição da região, o cônsul Flamínio levantou acampamento e saiu em sua perseguição. Com isto estava caindo em uma bem planejada armadilha, pois dando perseguição a Aníbal ao longo da estrada para Roma, seguiu atrás dele pelas margens montanhosas do Lago Trasimeno, onde no enevoado dia seguinte atacou o exército cartaginês, que recuou.

Acreditando na vitória iminente, Caio Flamínio pôs-se novamente em perseguição, apenas para ver tropas cartaginesas emergirem das elevações cheias de bosques em volta e atacarem suas legiões por todos os lados. Completamente superado, o exército romano é destruído. Neste momento, nada mais existia entre o exército cartaginês e a própria Roma.

Mas Aníbal, inexplicavelmente, não marchou direto contra Roma. A razão disto é desconhecida, mas a falta de máquinas de assédio foi sempre apontada como um fator importante. Outra hipótese é que dada à impossibilidade de conquistar a cidade inimiga, Aníbal já tencionasse separar Roma de seus aliados, para o que sua estratégia seria rumar para o sul da Península Itálica, obter apoio entre outros dos sanmitas e ficar bem posicionado para receber suprimentos e reforços de Cartago. Tomou a rota atravessando a Etrúria, cruzando os Apeninos em direção ao Adriático e parando para repousar as tropas, período em que adquiriu uma doença oftálmica que lhe custou um dos olhos. Ao mesmo tempo, Aníbal procurou formar uma aliança com diversas cidades italianas, congregando-as na derrota de Roma, sua conquistadora no passado recente. Todavia, esta plana falha, com as cidades da Itália permanecendo fiéis a Roma. Dois motivos apontados para este comportamento são os fatos de Aníbal, com falta de suprimentos, ter permitido o saque em seus territórios e também a política romana em relação aos territórios conquistados, permitindo que estes mantivessem vários direitos. Ao mesmo tempo, apesar das recentes derrotas, Roma abriu um novo teatro de operações, iniciando hostilidades na própria base de Aníbal, a Península Ibérica, onde enfrentam o irmão mais novo de Aníbal, Asdrúbal Barca.

A estratégia Fabiana

Enquanto Aníbal prosseguia com sua estratégia política, os romanos decidiram não mais enfrentá-lo em campo aberto. Em vez disso, seu ditador nomeado na época, chamado Quinto Fábio Máximo, também conhecido até então como Veruscus, eleito em 217 a.C., optou por uma prolongada guerra de atrito, visando enfraquecer paulatinamente Aníbal.

Fábio, que ganhou o apelido de cunctator (Contemporizador), tentou desgastar Aníbal com incontáveis recontros, provocando danos à moral do exército cartaginês e impedindo que este se reabastecesse de soldados. Também buscava, com esta estratégia de desgaste moral e material, evitar que cidades italianas se unissem aos invasores.

Para implementar tal estratégia, Fábio se recusou a enfrentar os cartagineses em campo aberto, onde a cavalaria númida dava a estes uma imensa vantagem, mantendo as tropas romanas nas montanhas, onde tal vantagem era anulada. Assim, abalou o moral do exército invasor ao mesmo tempo em que fortaleceu o do próprio, assim como o de seus aliados.

Porém, a estratégia de Fábio não era popular entre todos os romanos. Muitos desejavam um grande confronto, que definitivamente eliminasse a ameaça de Aníbal. Assim, os políticos romanos tomaram uma atitude absolutamente inédita, fora mesmo da constituição da República, ao elegerem um vice-ditador, chamado Minúcio, ex-auxiliar de Fábio, mas agora comprometido com um ataque direto aos cartagineses, e dividindo o comando do exército romano entre ambos. Partindo imediatamente para o ataque, Minúcio prontamente caiu em uma armadilha de Aníbal, apenas escapando de ser destruído graças à intervenção do próprio Fábio.

Infelizmente, o mandato de Quinto Fabio como ditador era do tipo ad tempus certum e, ao findar seu período, além deste não ser prorrogado, nas eleições subseqüentes, em 216 a.C., foi eleito um cônsul, Caio Terêncio Varrão, também conhecido como Varro, profundamente comprometido com um ataque direto contra Aníbal. Mais ainda, considerando a devastação sofrida pela Península Itálica inaceitável, o Senado ordenou que se atacassem logo os cartagineses.

Para tanto, Roma levou a campo o maior exército de que até então dispora, no impressionante total de oito legiões, o que significava aproximadamente 86 mil homens. O outro cônsul, Paulo Emílio, acreditava que a batalha deveria ser travada quando as condições fossem favoráveis ao exército romano. Todavia Varro rejeitava esta concepção, acreditando em simplesmente encontrar Aníbal o mais rapidamente possível, dar-lhe combate e destruí-lo.

Com este intuito levou suas tropas para o sul, até a Calábria, num local chamado Canas, onde Aníbal conquistara um depósito de provisões situado em um local estratégico do qual os romanos necessitavam.

Para a compreensão da seqüência de fatos que levaria este exército ao desastre, é preciso compreender uma peculiaridade da constituição romana: dois cônsules eram eleitos, tendo entre suas atribuições comandarem o exército. Quando um cônsul sozinho dirigia uma campanha, cabia-lhe o comando supremo das tropas, mas quando os dois acompanhavam o mesmo exército, cada um deles comandava em um dia, sendo substituído pelo outro no dia seguinte e assim sucessivamente.

Desta forma, Paulo Emilio, acreditando que deveriam aproveitar uma ocasião mais favorável, conduziu as tropas com grande moderação, esperando mesmo que a escassez de suprimentos forçasse Aníbal a abandonar a posição que defendia, possibilitando aos romanos ocupá-la. Mas Varro forçou o combate, aproveitando-se do dia em que o comando alternado lhe cabia para colocar as tropas em formação de batalha, fora do acampamento e frente a frente com o exército cartaginês. Desta forma, Varro fez exatamente aquilo que Aníbal desejava, oferecendo a este a ocasião de provocar uma grande derrota aos romanos, o que lhe fora negada pela estratégia de Fábio.

A Batalha de Canas

Aníbal estudara os métodos militares romanos e, portanto, sabia que os inimigos avançariam contra o centro de suas forças. Mais do que isto, porém ele contou com as próprias táticasVarro. Este, talvez por achar que a causa anterior das derrotas romanas fora a menor profundidade das formações das legiões comparativamente com a falange macedônia usada pelos cartagineses, dispôs suas tropas numa enorme e compacta coluna, pouco mais comprida do que larga. Esta formação, feita para atuar empurrando os cartagineses como um aríete, assim substituía a tradicional formação romana em manípulos.

Aníbal, por sua vez, dispôs suas forças não em linha reta, mas sim numa fila convexa. Mais ainda, na vanguarda colocou seus soldados mais fracos, gauleses e celtiberos, enquanto nas extremidades colocou recuadas suas melhores tropas, de veteranos africanos. Cobrindo os flancos de seu dispositivo, pôs a soberba cavalaria, na direita a cavalaria cartaginesa e na esquerda a númida.

No princípio da batalha, a cavalaria cartaginesa na esquerda derrotou a cavalaria romana da direita, que fugiu e, dando a volta por detrás da formação romana, atacou a cavalaria da esquerda romana, que lutava contra a cavalaria númida.

Neste meio tempo, os romanos atacaram com sua infantaria, exatamente da forma esperada, avançando contra o centro e contra os gauleses, que como Aníbal previra cederam e logo formaram uma concavidade na linha cartaginesa, para a qual convergiu a infantaria inimiga. De repente, os cartagineses avançaram e fecharam a formação adversária pelos lados, flanqueando os romanos, ao mesmo tempo em que sua cavalaria atacava os romanos pela retaguarda. As legiões foram completamente cercadas, em tal amassamento dentro da formação cartaginesa que sequer puderam sacar suas espadas. O que deveria ser o combate decisivo contra Aníbal tornou-se uma carnificina, na qual o próprio exército de Roma foi massacrado.

Os historiadores divergem sobre o número de perdas, mas concordam em que pereceu a fina-flor do exército de Roma, além de sua maior parte, numa derrota total e completa, muito pior que a do Lago Trasimeno. Ironicamente, entre os mortos está o cônsul Paulo Emílio, enquanto seu colega e principal responsável pelo desastre, o cônsul Varro, voltou a Roma sem sequer ter sido aprisionado.

A notícia da derrota espalhou do pânico em Roma. As mulheres doaram suas jóias ao estado e limparam o chão dos templos com seus cabelos, as legiões recusaram-se a receber o soldo, crianças de 13 e 14 anos foram alistadas para servirem na defesa das muralhas, além de escravos terem sido aceitos nas legiões mediante a promessa de liberdade e o Senado, visando o favor dos deuses, mandou sacrificar-lhes quatro prisioneiros enterrando-os vivos.

Inexplicavelmente, porém, Aníbal não marchou contra Roma, o que a história jamais compreendera perfeitamente. Sem dúvida lhe faltavam máquinas de assédio, o que é uma das explicações aventadas. Outra hipótese plausível para a recusa de Aníbal em atacar RomaCanas, que permitiu aos romanos se reorganizarem para a defesa da cidade. Igualmente especula-se que Aníbal, após a monumental derrota romana, imaginava que as cidades italianas aderissem finalmente à sua causa, assim como esperava atrair a aliança de diversas outras nações, ao invés de ter de invadir o Lácio e sitiar uma por uma das cidades latinas até a própria Roma.

De fato, tão grande foi à derrota de Roma que as tribos dos sanmitas e outros se rebelaram e passaram a apoiar Aníbal, ao mesmo tempo em que as cidades da Magna Grécia e da Campânia, lideradas por Cápua, a segunda maior da Itália, fizeram a mesma coisa e abriram suas portas aos cartagineses. Ao mesmo tempo, o rei Filipe V da Macedónia, aderiu à causa cartaginesa, em 215 a.C., e declarou guerra aos romanos, além da própria Cartago, sempre avara em suprimentos e homens para Aníbal, lhe enviar reforços. Mais importante ainda, os soberanos de Siracusa que substituíram a Hierão mudaram de lado e abraçaram a aliança com Cartago. E a Sicília era vital para Roma por causa do fornecimento de cereais.

Mas as esperanças de Aníbal se interrompem neste ponto, pois as cidades do centro da Itália, notadamente da Etrúria, do Lácio e da Úmbria, permanecem fiéis a Roma, que por sua vez entregou suas tropas restantes ao cônsul Cláudio Marcelo e voltou, na medida do possível, a estratégia de desgaste e guerrilha pensada por Quinto Fábio Máximo.

Assim, se explica este momento da guerra por Aníbal não possuir força suficiente para tomar Roma ou invadir o Lácio e por talvez nem a própria Cartago as possuir se realizasse um esforço definitivo. Desta forma, Aníbal permaneceu no Sul da Península Itálica, aguardando reforços da África, da Península Ibérica ou da Macedônia, sem avançar diretamente contra Roma.

A estagnação na Itália e o desenrolar da guerra em outros teatros de operações

Este período da Segunda Guerra Púnica foi caracterizado pela falta de ação no teatro principal da guerra e, ao mesmo tempo, por diversos conflitos em outras regiões.

Na Península Itálica, os cartagineses se instalaram em Cápua e ocuparam o sul da península, estabelecendo-se uma frente de batalha mais ou menos na altura do rio Volturno, 174 quilômetros ao sul de Roma. Atacar Aníbal diretamente neste reduto mostrou-se impossível e nos cinco anos seguintes mais de um comandante Romano que tentou tal coisa e foi derrotado serviu de prova.

Entrementes, na Sicília, o cônsul Marcelo atacou e conseguiu tomar Siracusa em 212 a.C., após um longo e terrível sítio, no qual a cidade foi defendida pelo matemático e engenheiro Arquimedes, o que fez os romanos terem de enfrentar as mais recentes inovações da ciência grega. Esta vitória se completou pela conquista, pouco depois, também da cidadela cartaginesa de Agrigento, logrando a retomada da ilha e assegurando o fornecimento de cereais a Roma, além de dificultar as comunicações entre Aníbal e Cartago.

Uma importante manobra ocorreu quando os romanos se aproveitaram da ausência de Aníbal e seu exército para atacarem e assediarem Cápua, um ano após a tomada de Siracusa. As legiões lograram invadir a cidade, o que levou os líderes da rebelião anti-Roma, responsáveis pelo massacre dos romanos ao decidirem pela aliança com Cartago, a cometerem suicídio ou serem executados pelos vencedores, enquanto a população da cidade sofria uma diáspora pelos restantes domínios de Roma.

Ao mesmo tempo, os romanos iniciaram uma série de operações contra Filipe V, enviando uma grande frota para vigiarem o Adriático, que impediu aos macedônios a conquista da cidade de Apolonia, trampolim para a invasão da Península Itálica. Iniciaram também uma ofensiva diplomática junto aos estados gregos, tentando congregá-los contra a Macedônia. Assim, quando Filipe V, após diversas vitórias na Ilíria, conseguiu tomar o excelente porto de Lisso, ao mesmo tempo em que Aníbal tomava o porto de TarentoTaranto), (atual tornando viável a ambicionada invasão, uma poderosa coalizão grega comandada pelos etólios, aos quais Roma prometera dinheiro e apoio militar, impediu que os macedônios juntassem suas forças com as de Aníbal.

Roma também redobrou seus esforços na Península Ibérica, onde já começara operações antes mesmo da derrota de Canas, para onde enviou um novo exército sob comando de dois membros da família Cipião, um dos quais o Públio Cipião que antes já fora derrotado por Aníbal. Esta força conseguiu vencer os cartagineses no rio Ebro, em 215 a.C., derrotando Asdrúbal, mas pouco depois foi por este derrotada, com a morte de seus dois comandantes. Assim, Cartago mantinha, apesar da presença de uma pequena força romana, o controle da essencial Península Ibérica, base de seus exércitos.

Mas neste ponto Aníbal estava praticamente isolado no sul da Península Itálica, sem conseguir assediar Roma e privado de reforços. Percebendo a mudança nos ventos da guerra, Filipe V voltou atrás na aliança com Cartago e passou a apoiar Roma, privando Aníbal de seu mais forte aliado.

Tentando reverter definitivamente o curso dos acontecimentos na Península Ibérica, o Senado Romano nomeou um candidato improvável para comandante. Tratava-se de Públio Cornélio Cipião, filho do cônsul Cipião e sobrinho do outro comandante que também morrera na campanha contra Asdrúbal. Tinha apenas 24 anos, idade abaixo da legal para comandar exércitos, mas inspirava tal confiança no povo e no Senado que a lei foi alterada para permitir que ele assumisse o controle das legiões em confronto com Asdrúbal.

Em 210 a.C., ele correu para assumir o comando, com ordens de defender a única possessão romana na região, um enclave no Nordeste da península.

Públio Cornélio Cipião

Naquela época, era conhecido como Públio Cornélio Cipião, O Moço, e, apesar de sua pouca idade, já dera mostras de grande capacidade política, além de ser considerado carismático e devoto, apresentando-se publicamente como ungido pelos deuses.

Assumindo o comando do exército ibérico, Cipião alterou sua missão, basicamente defensiva, para uma tentativa de efetivamente derrotar Asdrúbal e expulsar os cartagineses. Utilizando a diplomacia e da ação militar, com uma tática superior e rápidos deslocamentos, primeiro cortou as comunicações entre Nova Cartago e o restante das tropas, depois a isolou das forças aliadas e, vadeando um lago e atacando as muralhas da cidade, conquistou a principal base cartaginesa. Com isto, acertou um golpe importantíssimo nas pretensões cartaginesas, pois a Península Ibérica era a verdadeira base de Aníbal, sede de seus exércitos e celeiro de recrutas.

Vendo a situação perdida, Asdrúbal atendeu ao chamado anterior de seu irmão e tentou alcançar a Itália, também pela rota dos Alpes. Mas Roma tomou conhecimento de seu deslocamento. Desta forma, o cônsul Nero, que tinha suas forças frente às de Aníbal, imperceptivelmente as retirou desta frente sul e as levou para o norte sem que o general cartaginês percebesse, onde encontrou o exército de Asdrúbal. Em Signália, junto ao rio Metauro, ao norte da península, Nero não só destruiu o exército inimigo como também conseguiu matar Asdrúbal, em 207 a.C.

Em 205 a.C., Públio Cornélio Cipião retornou a Roma e, eleito cônsul, propôs-se a realizar um plano ousado: invadir diretamente o norte da África e atacar Cartago em seu próprio território. A reação do Senado e principalmente de Quinto Fábio Máximo foi absolutamente negativa. Mesmo assim, Cipião conseguiu permissão para a empreitada, embora lhe fosse negada autorização para recrutar tropas. Conseguiu apenas voluntários e duas legiões que, derrotadas anteriormente em Canas, haviam sido mandadas em desgraça para a Sicília. Com esta força na primavera de 204 a.C., ele partiu para invadir o coração do inimigo, na esperança de que Aníbal o seguisse.

A Guerra chega à África

Na época da Segunda Guerra Púnica, o norte da África era bem mais desenvolvido e civilizado que a própria Península Itálica, O que se revelou vital para a estratégia que Cipião Africano empregaria contra Cartago.

Logo ao desembarcarem as tropas romanas, Cartago mandou contra elas toda a cavalaria de que dispunha. Mas Cipião, manobrando numa retirada tática, as atraiu para uma armadilha e a aniquilou. Graças a esta vitória, conseguiu dois efeitos importantes: mais apoio de Roma e abalar a liderança de Cartago na região.

A manobra seguinte de Cipião, todavia, fracassou, com o cerco de seis semanas ao porto de Útica sendo levantado pelas tropas de [Sifax]], rei dos númidas e o mais poderoso aliado de Cartago, que veio se juntar às novas tropas que o general cartaginês Asdrúbal Grisco recrutava. Juntas, estas forças muito superiores obrigaram Cipião a recuar até uma pequena península, que este fortificou e transformou em refúgio.

A partir desta base improvisada, planejou uma arriscada manobra, dando a impressão de que tentaria invadir o porto de Útica e, de repente, num ataque noturno, caindo sobre o acampamento das tropas de Sifax, situado a 11 quilômetros do acampamento cartaginês. Vendo o fogo se alastrar nas posições de seus aliados, os cartagineses abriram as portas de seu próprio acampamento na tentativa de ir socorrê-los e neste momento Cipião aproveitou para atacar também suas tropas, com o que conseguiu a completa derrota tanto de Sifax quanto dos cartagineses. Graças a esta vitória, entre Cartago e as legiões romanas não existia mais nenhuma oposição apreciável.

Todavia, tal qual Aníbal antes dele, Cipião também não marchou direto contra a capital inimiga, igualmente por lhe faltarem condições para o assédio de uma cidade muito maior do que a própria Roma. Ademais, um sítio a Cartago, além de sua difícil implementação, como a Terceira Guerra Púnica viria demonstrar posteriormente, não necessariamente traria Aníbal de volta à África, como desejava Cipião. Havia também o risco deste cerco trazer Aníbal de volta enquanto as operações contra a capital inimiga prosseguissem, prensando os romanos entre as duas forças. Assim, ao invés do ataque direto, Publio Cipião optou por destruir os aliados de Cartago, tencionando também abalar sua estrutura econômica e a própria moral dos inimigos.

Desta forma, escolheu marchar contra Sifax e suas tropas, que derrotou e, naquela que se revelaria à manobra decisiva da guerra, investiu contra aNumídia, derrotando os aliados cartagineses e colocando Massinissa no comando da terra de onde saíra à cavalaria que havia constituído umas das principais forças do exército de Cartago. Depois, avançou contra Túnis, outra aliada que ficava frente a frente da própria Cartago, dividindo a mesma baia, destruindo-a.

Tão difícil tornou-se a situação que os cartagineses decidiram abrir negociações de paz. Porém, as tratativas foram interrompidas em 202 a.C., com a chegada de Aníbal de volta da Itália, desembarcando em Léptis.

A Batalha de Zama

Antes do desembarque de Aníbal, Cipião dispensara Massinissa e sua cavalaria para que voltasse a Numídia e assegurasse o seu trono. Com a chegada de Aníbal, os romanos também ficaram presos entre as tropas deste e a própria Cartago. É provável que tratativas de paz encetadas entre Cartago e os romanos e a trégua em que elas se deram representasse um despiste para dar tempo a Aníbal de retornar a pátria.

Nesta situação, Cipião escolheu nem avançar contra Cartago nem dar combate a Aníbal, mas fugir ou dar combate direto e retirar suas forças, deixando apenas um pequeno destacamento e se afastando de Cartago através do vale de Bagrados. Assim, enquanto Aníbal corria para Cartago, Cipião movimentou-se em sentido inverso. A razão desta manobra foi colocá-lo em contato com Massinissa, que retornava às pressas da Numídia, e também colocar o exército romano exatamente no coração da fonte de alimentos da própria Cartago, numa posição que estes seriam obrigados a defender.

Ao saber da posição assumida pelos romanos, o Senado de Cartago ordenou a Aníbal que imediatamente o enfrentasse e, apesar deste responder que não se imiscuíssem em tais assuntos, Aníbal acaba tendo de se portar como o general romano pretendia. Desta forma, deslocou-se em marcha forçada para o oeste, afastando-se de Cartago e internando-se longe de qualquer cidade, fortaleza ou outro ponto de apoio para suas tropas. E no mesmo momento em que chegava Aníbal perante seu exército, Cipião recebia, também, o reforço de Massinissa e de sua cavalaria númida.

Porém, em vez de combater os cartagineses, Cipião mais uma vez recuou, afastando os inimigos dos suprimentos de água e levando a batalha para uma planície, onde sua superioridade em cavalaria lhe tornava qualquer desenvolvimento tático favorável. O nome deste local era Naragara, embora a posteridade o conhecesse, incorretamente, por Zama.

Para esta batalha decisiva, Aníbal dispôs suas tropas primeiro, colocando-as em formação antes de Cipião. Nas alas, sua própria cavalaria de númidas e cartagineses protegia as alas da infantaria, formada na frente pelos celtiberos e gauleses e, atrás, pelas suas melhores tropas, de veteranos africanos. À frente do dispositivo, ele colocara intimidadores batalhões de elefantes.

Ter de dispor as tropas depois de Aníbal deixava Cipião numa situação difícil, mas para isto a cavalaria de Massinissa mostrou-se vital. Os esquadrões montados adentraram o cenário em coluna e, frente ao exército cartaginês, abriram-se em linha, protegendo a infantaria que evoluía atrás. Depois, deslocaram-se para os dois flancos da formação, assumindo posição idêntica as da cavalaria adversária, embora estivessem em número bem maior.

O dispositivo de Cipião trazia a formação já tradicional de Velites, Hastários, Príncipes e Trinários, embora com um truque que decidiria a batalha favoravelmente aos romanos: coortes inteiras de homens armados com trompas de guerra logo nas primeiras filas da infantaria.

Coube a Aníbal o primeiro movimento, através de seus elefantes. A uma ordem sua, os pelotões de bestas que estavam à frente de sua infantaria avançaram contra os romanos. Porém, ao alcançarem a linha inimiga, além da oposição dos Velites à frente da infantaria, o som das trompas assustou os animais, que apavorados fugiram em direção ao próprio exército cartaginês, arrasando as alas direita e esquerda da cavalaria de Aníbal.

Imediatamente, os romanos alternaram a posição dos Hastários com os Príncipes, enquanto a cavalaria de Massinissa pelo seu lado direito e de Caio Lélio pelo esquerdo avançavam e a cavalaria cartaginesa, inferiorizada em efetivos, recuava para fora do cenário da batalha. Neste ponto, Aníbal ordenou que sua infantaria atacasse, com os celtiberos e gauleses na frente e com seus veteranos atrás. No choque que se seguiu, a infantaria de Cartago não conseguiu empurrar a infantaria romana e a formação mais larga e mais delgada de Cipião mostrou sua superioridade, envolvendo os flancos da formação cartaginesa e a assolando de três lados. Por fim a cavalaria de Massinissa retornou pelas costas de Aníbal, cercando totalmente o exército de Cartago. Sem condição de evoluir taticamente, o exército cartaginês foi completamente derrotado.

Pior talvez do que esta derrota tática, foi à derrota estratégica anterior, pois num local remoto e sem pontos de apoio, Aníbal não teve para onde recuar nem como reagrupar suas tropas. Nesta condição, totalmente vencido, rendeu-se a Cipião. Cartago nada mais tinha a responder após Zama. Não teve escolha além de pedir a paz e dar a guerra como perdida.

Roma aproveitaria a derrota total da inimiga, impondo condições rapaces: Cartago deveria entregar toda a sua frota, pagar uma brutal indenização, abandonar todas as suas posses.

Os destinos de Aníbal e de Cipião

Após a rendição, Aníbal permaneceu em Cartago, como magistrado-chefe, tentando obter meios de pagar a grande indenização exigida por Roma. É consenso entre os historiadores que procedeu bem nesta tarefa, agindo com honestidade e irritando a nobreza cartaginesa, que o denunciou a Roma. Ao receberem a denúncia, os romanos viram a ocasião para se livrarem do velho adversário, exigindo que Cartago o entregasse.

Aníbal, todavia, fugiu para a Síria, na época parte do Império Selêucida, aconselhando o rei Antíoco III a entrar em guerra contra Roma, guerra esta que Antíoco perdeu, novamente para Cipião e na qual Aníbal atuou como comandante naval. Da Síria fugiu para a Bitínia onde, prestes a ser entregue aos romanos, suicidou-se com veneno.

Quanto a Cipião, o herói que derrotara Cartago, ainda comandaria, sob as ordens de seu irmão, a derrota de Antíoco III. Mas seria acusado por adversários políticos de corrupção e terminaria se refugiando naPenínsula Ibérica , abandonando Roma.

Conseqüências da Guerra

A primeira e mais importante de todas as conseqüências foi colocar Roma definitivamente no caminho do império, expandindo muito seu território. Embora a guerra prosseguisse durante décadas, a Península Ibérica foi formalmente anexada em 197 a.C. Para o leste, Roma anexou a Ilíria, após uma guerra que durou de 230 a.C. a 219 a.C..

Em 214 a.C., começou a primeira das Guerras macedônicas, que Roma terminou em 168 a.C., com a anexação deste país e a escravização em massa dos macedônios derrotados. Logo após, a partir de 192 a.C., Roma derrotou Antíoco III e anexou a Anatólia até os montes Taurus e, em 97 a.C., Sila, o Feliz, expandiu o domínio romano para o Oriente até o rio Eufrates e para o sul até a Judéia.

Ao mesmo tempo, o decisivo poderio cartaginês foi destruído e, finalmente, em 146 a.C., Cipião, o Africano Menor, neto por adoção de Cipião, o Africano Maior, a destruiu completamente na Terceira Guerra Púnica.

Dentro de Roma, a conseqüência da guerra foi o lento processo de estrangulamento da República. Ao voltarem para casa, os soldados não encontram mais as terras que cultivavam, destruídas pela guerra ou pelo abandono de seus donos, o que acelera a acumulação de propriedades nas mãos dos Patrícios.

Aníbal, de fato, não destruiu Roma, mas a guerra desencadeou uma série de fatos, incluindo a chegada de milhares de escravos do Ponto em conseqüência das Guerras Macedônicas, que causaram a Guerra Agrária. Ele não destruiu Roma, mas ajudou muito a destruir a República Romana e a abrir caminho para os Césares, o Principado e o Império Romano.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2008


Malhas

As armaduras de malha foram possivelmente as mais usadas em toda a história. Seus primeiros achados datam do séc. IV a.C. e estão associados ao povo celta. Os romanos, na seqüência, fizeram largo uso das malhas enquanto durou seu império, deixando-as de herança para os povos medievais que aperfeiçoaram este tipo de armadura ao seu maior grau.

Por toda a Idade Média as armaduras de malha foram usadas, atingindo seu auge no séc. XIII quando o cavaleiro se envolvia literalmente dos pés a cabeça em anéis de ferro interligados.

Historicamente, a existência de malhas com anéis cujas extremidades estão apenas juntadas (sem nenhuma solda ou rebite) é duvidosa. Existem poucos exemplos que sobreviveram, sendo peças das mais antigas ou referentes a reparos em campos de batalha. Todas as outras peças de autenticidade comprovada contém anéis rebitados ou sólidos (soldados ou extraídos por completo de uma chapa). De fato, somente esses anéis conferem às malhas seu poder de proteção num combate real. A Guilda começou a fazer seus projetos em anéis rebitados, embora ainda ofereça peças nos não autênticos anéis juntados.

Sobre a nomeclatura

Existe muita confusão associada à nomenclatura desta armadura. O termo popular em inglês chainmail é um pleonasmo, uma vez que mail — do francês maille, do latim macula que significa malha — dava nome à armadura em sua época. No séc. XVIII, o termo mail acabou se desvirtuando e passou a denotar qualquer tipo de armadura, fazendo surgir nomes medonhos como chainmail, scalemail e platemail, totalmente equivocados.

No português o problema continua. O conhecido cota de malha vem também do francês cotte de maille que significa vestido/veste de malha. Sendo assim, pode-se usar o termo para dizer das peças no formato de túnica ou camisa (hauberk e haubergeon), mas não para dizer da trama ou do tipo de armadura. Falar algo como “este cavaleiro trajando uma túnica de cota de malha” é um equívoco. Ou use “uma túnica de malha” ou apenas “uma cota de malha”.

Tramas

Existem diversas técnicas para se unir os anéis de ferro, são o que damos o nome de trama da malha. É a trama, juntamente com o tamanho e espessura dos anéis, que dará as características de peso, resistência, expansibilidade e flexibilidade da peça. Os armoreiros medievais sabiam disso quando escolheram a trama 4 por 1 como sendo a padrão para suas armaduras.

4 por 1 significa cada argola passa por outras 4. É a trama européia mais simples e também a maiseficiente. Apresenta ótima expansibilidade e pouco peso, que não restringem os movimentos do guerreiro. Outras malhas possíveis são as 6 por 1, 8 por 1 etc. Embora mais densas e teoricamente mais resistentes, pecam pela falta de mobilidade e peso excessivo. Na prática, sempre podemos diminuir o tamanho das argolas de uma trama 4 por 1, melhorando sua resistência, no lugar de optar por uma 6 por 1 com o mesmo tamanho.

Historicamente essas assertivas se verificam. Quase todas as malhas autênticas são 4 por 1, com pouquíssimos exemplos 6 por 1 não totalmente verificados. Deve-se ter em mente que estamos falando de anéis sólidos/rebitados que são dezenas de vezes mais resistentes do que os juntados. Não fosse o caso, diminuir o tamanho das argolas nem sempre seria a melhor opção.

Vale mencionar que armaduras de malha também existiram no Japão feudal, com tramas com simetria triangular bem diferentes das européias, como a 3 por 1 e a 6 por 1 oriental.

Hauberk/Haubergeon

Até o séc. XIII a principal armadura do cavaleiro era a túnica de malha. Descia até a altura dos joelhos, com mangas compridas terminadas em mitenes (luvas), trazendo às vezes uma coifa (capuz) de malha incorporada. A estas túnicas damos o nome de hauberk.

Com o desenvolvimento das armaduras de placas nos séculos seguintes, o hauberk foi reduzindo de tamanho e se tornou o haubergeon, uma camisa descendo até abaixo do quadril com mangas ¾ do comprimento. Estas são as cotas (vestes) de malha.

Na Roma antiga, malha era a armadura padrão dos soldados antes do aparecimento da lorica segmentata. Se parecia com um haubergeon mas sem mangas e trazia uma camada dupla na região dos ombros. Seu nome era lorica hamata.

Seguindo a linha histórica, no início da Idade Média — séc. VI–X — a lorica hamata sobe até a altura dos quadris, ganha mangas de cerca da metade do comprimento e perde a dupla camada nos ombros. Esta cota de malha é comumente associada ao povo escandinavo e recebe o nome de birnie. Pode-se reparar que esta camisa se enquadra muito bem em um haubergeon, mas historicamente colocamos este depois do hauberk enquanto que o birnie antes.

Coifa

A coifa é o capuz feito de malha com o intuito de proteger a cabeça e o pescoço. Durante os séc. XI–XIII costumava ser integrada ao hauberk, depois disso começou a ser vista separadamente, com um manto que descia até os ombros.

Por volta do séc. XII as coifas receberam uma melhoria: a venteira. Tratava-se de uma tira de malha anexada à lateral da abertura da face que, quando presa à outra extremidade, cobria o queixo (por vezes a boca também) deixando somente a parte superior do rosto exposta.


A venteira possivelmente continha um forro que ajudava a malha a ficar moldada corretamente enquanto servia de acolchoamento para diminuir o impacto no maxilar.


Calças

As calças são as proteções de malha para as pernas, podendo ser na forma de meiões compridos, subindo até a coxa, ou uma faixa de malha que dá a volta pela perna, presa atrás por amarras de couro. Por volta do séc. XIII, as calças começaram a aparecer incorporadas com um sapato também de malha.


Manto

O manto era uma peça feita para proteger o pescoço, os ombros e eventualmente a parte superior do peito e das costas. Achados históricos datam do séc. XV e XVI, principalmente de origem germânica. Como mostrado na ilustração, a trama não é radial, mas apresenta emendas de 45°, além de uma fenda nas costas (fechada por cordões de couro) para deixar passar a cabeça.

Camal

O camal tem a mesma finalidade do manto — a proteção da parte superior do corpo — com a diferença de que é afixado ao elmo (muito comum aos bacinetes). O método tradicional de afixação se dá por meio de anilhas, conforme mostrado na imagem.

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